19 março 2007

Povo Feliz

"Povo Feliz". Acredita-se que somos. Nós, tupiniquins. Vira e mexe alguém exalta nossa felicidade. De um jeito ou d'outro. O outro jeito é melhor rankeado no Google. Você busca "Povo Feliz" e recebe uns 6 links para "Povo marcado - êh Povo Feliz". Mas uma felicidade sem marcas, vira e mexe, pinta na mídia. Na nossa mídia. Pelo jeito, estão confundindo "povo feliz" com "bobo alegre".

Explico: um monte de cientistas sérios elaborou um 'Mapa Mundial da Felicidade'. Um tipo de ranking. O Brasil tá em terceiro no da FIFA, né? Perde pra Argentina e Itália. Mas tá bem melhor no futebol do que no quesito 'felicidade'. Saca só os primeiros colocados:

  1. Dinamarca
  2. Suiça
  3. Austria
  4. Islândia
  5. Bahamas
Bah! São ricos. Estão no tal Primeiro Mundo (Bahamas é periferia-pólo-turístico). Natural que sejam mais felizes. Mas o que fazem Butão e Brunei em 8º e 9º? Na frente do Canadá que até pouquíssimo tempo atrás tinha o melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo.

Pronto, acabei de misturar grana com bem estar social com felicidade. Só falta colocar pagode na parada. Falta, antes, descobrir onde tá o Brasil no mapa da felicidade. No release da SD ele não é citado. Menos mal que ele não apareça junto com os lanterninhas, Congo, Zimbábue e Burundi. Mas, e aí? EUA é 23º. Alemanha, 35º. A França, tristonha, é 62º! E nada do país que vive gritando aos 4 ventos da mídia sua eterna felicidade. Será que ela só dura nos 5 dias de carnaval? Pode ser. Aí, se fizeram a pesquisa na Quaresma, acabaram prejudicando nossa posição. Felicidade é sazonal?

Xi... então entramos em período de entre-safra. Amanhã começa o outono. Folhas cairão. E os 'bobos-alegres' perderão um cado de exposição. Até propaganda de cerveja fica mais sisuda (e com menos bunda).

Mas há luz no fim do túnel da Rebouças. O "Pan do Brasil" vem aí. Com a maior campanha publicitária (indiretamente paga) da história. Para "felicidade" d'alguns bobos-alegres: em pleno inverno tropical!

03 março 2007

Prêmio de Consolação

Prêmios e campeonatos sempre serão uma fonte de injustiças. Variáveis e gostos são amplos e diversos demais para que a gente simplesmente fale: é o melhor filme, a melhor música, etc. Vivo cometendo tal pecado. "Blade Runner" me ensinou o que é cinemão. Na lata, ele sempre é meu filme favorito. Uma certeza que é constantemente abalada. Quando revi a trilogia do "Poderoso Chefão" pela enésima vez eu cravei: "Poderoso Chefão" é o melhor filme de todos os tempos! Besteira...

Mas uma besteira gostosa. Por isso Nick Hornby, principalmente o seu "Alta Fidelidade", é tão divertido. O protagonista vive fazendo listas: "as 10 melhores músicas para uma segunda-feira modorrenta"; "as 10 melhores músicas quando se está numa fossa daquelas"; "os melhores filmes para um primeiro encontro com uma garota". Não é nada sério. Provoca produtivas e úteis discussões sobre cultura inútil. E grana só entra na história se rolar alguma aposta besta. Caso contrário, é a prosa pela prosa.

Daí que o Oscar e similare$ são uma bullshitagem ('cagada de touro' em pt-br vira besteira mesmo) pura. Uma bobeirinha que movimenta milhões e mobiliza praticamente toda a indústria de entretenimento. Toda mesmo: do mundo da música até o universo dos games. É o principal item em todo o arsenal de marketing de Hollywood. Chega a ser até divertido quando não exagera nas encenações.

Em 1992, quando "Silêncio dos Inocentes" papou todos os prêmios relevantes (filme, diretor, atriz, ator e roteiro), pensei que o Oscar estava ficando mais coerente e livre. Pena, foi uma exceção. Um desvio que só se repetiu no ano passado, quando "Crash" levou o prêmio de melhor filme. Fora isso, a regra no Oscar é grana, conservadorismo e décadas de atraso.

O atraso, maior fonte de injustiças, ganhou um tipo de 'band-aid': aquele tal 'Prêmio pelo Conjunto da Obra'. Hitchcock, o mais completo diretor de cinema, ganhou um. Foi uma das cenas mais deprimentes na história do cinema: Hitch velhinho, muito debilitado. Ele não precisava disso. Assim como Robert Altman. Engraçado é que parece que os caras da academia adivinham quando o cara está prestes a deixar este mundo. Dá o prêmio de consolação e o cara capota. Engraçado nada - é triste mesmo.

Mas eis que a Academia resolve inovar: recompensa uma injustiça dando um prêmio 'de verdade'. Assim, finalmente, Martin Luciano Scorsese ganha o prêmio de melhor diretor. Foi quase tão deprimente quanto as cenas com Hitch e Altman. Sorte deles, da Academia, que Scorsese tem um senso de humor danado. E recebeu o prêmio das mãos de três reis magos: Coppola, Spielberg e Lucas. Pegou a estatueta perguntando: "Vocês têm certeza de que sou eu mesmo?" Era.

Não pelo pesado e cínico "Taxi Driver". Nem pela sua obra-prima, "O Touro Indomável". "Os Bons Companheiros" ou "A Última Tentação de Cristo"? Nem pensar. "Os Infiltrados" nem foi um esforço explícito para obtenção do Oscar. É um remake de um filme de Hong Kong!?! Não me lembro do Oscar descer tanto o nível. Talvez o Oscar 2007 seja lembrado pela maior forçação de barra de todos os tempos. Triste.

Tomara que em 2027 eles não estejam fazendo o mesmo com o Alejandro Gonzáles Iñárritu. "Amores Perros" já merecia o prêmio de melhor filme estrangeiro em 2001. "21 Gramas" e "Babel" encerram uma das trilogias mais acachapantes da história do cinema. Mas a academia estava ocupada, corrigindo uma injustiça cometida em 1977.

01 março 2007

14 fevereiro 2007

Olha o Camburão aí Gente!

E por falar em ressurreição! Uma das bandas mais criativas e bem sucedidas dos anos 80 vai se reunir para comemorar os 30 anos de sua primeira gravação. O Police está de volta!



Por enquanto se trata de uma grande turnê mundial. Claro, Pindorama tá na lista. Provavelmente no último trimestre. Um CD e um DVD com o registro do passeio deve ser inevitável. Mas, por enquanto, nada de novas gravações. É mais provável que seja só isso mesmo: uma grande comemoração e pronto. Sting, apesar do desastre de seu último disco (Sacred Love), tem uma carreira solo consolidada. Andy Summers tá com uns 60 anos. Não tem mais pique para banda. E Stewart Copeland é um esquisitão-legal que sonha desde 86 com a volta do Police. Terá seus 10 meses de curtição.

Como eu já disse por aqui, não gosto de 'revivals'. Mas, de novo, taí mais um que curti. Sim, porque o cenário musical anda paupérrimo. Sim, pq finalmente poderemos ver o trio no Brasil. E não precisa ter música nova. Aliás, tomara que eles evitem isso. Não tenho dúvidas de que cada som será retrabalhado. Sting regravou dezenas de sucessos do Police, todos com uma roupagem bem jazz. Copeland é vidrado em sons do 'terceiro mundo' desde a primeira fase da banda. E Andy Summers é eclético por natureza. O último disco dele é "Splendid Brazil", gravado em parceria com o excelente guitarrista Victor Biglione. Ele gravou "Chovendo na Roseira" (Jobim), "Retrato em Preto e Branco" (Jobim e Chico), "As Rosas não Falam" (Cartola) e "O Ôvo" (Hermeto), dentre outros clássicos tupiniquins. Tudo instrumental. Todas fenomenais. Tudo passou batido na terra do calypso-bruno-amarronado.




O Police nasceu praticamente no 'boom' do pior momento do rock: na era "punk+disco". Passou batido, apesar da guitarra seca de "Next to You". Diferença fundamental: inteligência + reggae. Acabou criando um estilo que foi cansativamente copiado mundo afora. Um de seus filhotes mais nobres é o Paralamas do Sucesso (mesmo formato - mesma proposta inicial).

O trio não tem lógica e talvez por isso tenha sido tão criativo. Sting era professor com uma voz fraquinha pero marcante. Um Chet Baker sem heroína (só um yagezinho de quando em vez). Copeland, filho de diplomata estadunidense, girou mundo. Playboyzinho culto e antenado. Para muitos, o melhor baterista dos últimos 30 anos. Para mim ele perde do Bonzo (Led) e empata com o João Barone. Summers era o mais velho dos três. Tava no mundo do rock desde o início da era Beatles! Participou de coisas pra lá de estranhas como o Dantalion's Chariot, banda pop-psych que lançou um disco em 67. Escute a introdução de "Bring on the Night" para entender porque muitos acreditam que Summers reinventou a guitarra.

A riqueza musical da banda merecia letras igualmente valiosas. É aqui que Sting se destaca. E não estou falando das rimas bem sacadas de "Every Breath you Take" (que ninguém tira da minha cabeça que é um quase plágio do reggae do LedZep, "D'yer M'aker" - sem demérito. Afinal, cria-se assim também). Mas tô falando de outras pérolas, tão ou mais importantes que o maior hit deles. "Roxanne" é um apelo passional para um puta (viu Veja: PUTA!). "Don't Stand so Close to Me" é um apelo frágil para uma aluna safadinha. "I Can't Stand Losing You" é o apelo dos apelos:

I guess this is our last goodbye
And you dont care, so I wont cry
But you'll be sorry when Im dead
And all this guilt will be on your head
I guess youd call it suicide
But Im too full to swallow my pride

I cant, I cant, I cant stand losing...


Como um dramalhão assim não soa patético? Tendo bom humor. E ritmo, muito ritmo.

Desse camburão ninguém tem medo. Que venha a Polícia!

12 fevereiro 2007

Torturando com Música

É verdade. Tropas estadunidenses usam altos e pesados sons como uma forma de tortura. Um dia foi "Voodoo Child" do Hendrix. Hoje rola Barney (?), Sesame Street (?) e Metallica.

Tortura não é brincadeira, mas não vou resistir. Semana passada uns trogloditas da PM de Sampa foram pegos com a boca na botija - cacetete e cotovelo na costela, melhor dizendo. Se copiassem seus iguais do hemisfério norte, teriam matéria prima de sobra: imagina uma sessão com um MC-qq coisa carioca, Bruno e Marrone, Dudu Nobre, Asa de Águia, Calypso e o Faustão tagarelando: "10 milhões de cópias vendidas! Sucesso é isso aí!! Ôrra meu!!!".

Qualquer um confessaria qualquer coisa...