por Luciano Pires
Sou de Bauru, terra onde surgiu Pelé, onde nasceu o inventor do sanduíche mais famoso do Brasil, do primeiro astronauta brasileiro e...da Eny. A Casa da Eny foi, talvez, o mais famoso prostíbulo brasileiro nos anos 60 e início dos 70. Até hoje passo pela estrada e vejo o luminoso, caindo aos pedaços, onde se lê “Eny´s drinks”. Mas “prostíbulo”, para definir a Eny, era pouco. Administrado com competência pela “tia Eny”, recebeu até presidentes da república. As garotas eram maravilhosas, algumas se tornaram celebridades na TV anos depois. Um paraíso, num tempo em que o pior que podia acontecer era uma gonorréia...Nada que o Julinho da farmácia não resolvesse...
Hoje me pego pensando no papel que as “zonas” tiveram no desenvolvimento das cidades do interior. Toda cidade tem a sua. O banco, a delegacia, a padaria, a farmácia e a zona eram referências comuns. Tia Eny era figura respeitada, benemerente. Zonas eram aceitas pela sociedade. Quantos garotos não tiveram sua primeira aventura sexual na zona? A prostituta experiente pegando pela frente o garoto nervoso e introduzindo-o, sem trocadilho, nos prazeres proibidos...
Parece que naquele tempo, tudo o que se queria era “vadiar” como dizia o Vadinho de Jorge Amado. Vadiar, divertir-se, dar umas risadas, fazer molecagens. Zonas, hoje, até existem, mas têm um novo componente, que naquela época era raro: o medo. Penso que o fim da Tia Eny, e das zonas como a dela, foi o fim do sexo moleque, sem compromisso, sem vergonha, sem medo. Penso até que foram elas, as prostitutas, as responsáveis por uma espécie de paz que existia naquela época. Quem tinha a cabeça cheia, o saco cheio, a paciência esgotada, ia desafogar na zona. Hoje desafoga espancando o vizinho na torcida do jogo de domingo.
Foram elas também que ensinaram para garotos brutos, como agradar uma mulher. Hoje a garotada aprende entre si, pagando o preço por isso. Quer saber? Antes de ser do meretrício, as zonas eram do equilíbrio. Zonas do equilíbrio...
Pois tenho um conhecido, o Cacá, que aparecia na zona as duas da tarde com três ou quatro convidados, tirava a mulherada do cochilo ou da piscina, pedia umas cervejas, fechava negócios e ia embora sem fazer programa.
- “O tipo de negócio que eu tenho tem tudo a ver”, justificava-se.
Ele tinha uma financeira...
Que ironia...A tia Eny acabou, a zona do meretrício fechou, mas o negócio do Cacá nunca esteve tão bem.
É verdade. Lá em Vga sobrevive até hoje a "Tia Kátia". Lá tem um Cacá também, mas sem financeira...
11 fevereiro 2005
A Zona
09 fevereiro 2005
Pra Conhecer PKD
Se tem uma coisa boa no lançamento de 'blockbusters' baseados em contos do PKD é que só assim as editoras se animam a lançar seus contos por aqui. Ambos os filmes comentados no post anterior, 'Minority Report' e 'Paycheck', motivaram o lançamento de 2 coletâneas de contos homônimas. Disponíveis nas melhores livrarias.
Pra saber mais sobre o cara a Wikipedia é o local ideal. E a Wired publicou há mais de 1 ano matéria especial sobre ele: "The Second Coming of Philip K. Dick". Taí!

Blade Runner 10 x 2 Outros
Philip K.Dick escreveu centenas de contos. A maioria é excepcional, não só para fãs de ficção científica. A manipulação de memórias e do futuro são alguns temas recorrentes. E dois contos com tais temas, 'Minority Report' e 'Paycheck' receberam as últimas adaptações para a telona. Orçamentos milionários, diretores de 1a linha (Spielberg e John Woo) e atores idem (Tom Cruise e Ben Affleck). Então pq não funcionam? Pq ficam sempre devendo pra versão de 'Blade Runner' do Ridley Scott?
O principal problema com 'Minority Report' é a falta de respeito com a história original. Roteirista que tenta 'inventar' em cima de história do PKD só dança. E mostra uma baita falta de respeito. Mas cenários e efeitos do filme são muito bons. Spielberg contratou um bando de cientistas pra tentar 'antecipar' alguns inventos. Se deu bem. Mas, no final das contas, perderam uma excelente oportunidade (algo como colocar Joel Schumaker pra dirigir Batman. Desperdício de história, personagem, tudo!).
O que estraga 'Paycheck' é exatamente o diretor, John Woo. Ele é viciado em coreografias de luta, slow-motion, e outros xiliques. Em MI2 pode até caber, mas em 'Paycheck' não tinha nada a ver. Todo protagonista do John Woo é uma versão ocidental do Bruce Lee. PQP!! A história é muito boa. Aqui não tem nada 'futurista'. Ou melhor, quase nada. Ben até que inventa uns brinquedinhos legais. Mas, de novo, desperdiçaram uma excelente idéia.
Hollywood tem mania de simplificar as coisas. Parece que todo filme deve ser uma versão 'for dummies' (taí! Eles podiam lançar versões editadas em DVD. Uma série "para estúpidos". Troca os comentários do diretor por um 'assistente' que ajuda a platéia a entender o filme!!! Vou patentear (hehe) e vender a idéia). PKD nunca foi de fácil degustação. Quem gosta adora, e quem não gosta nunca vai gostar. É sacanagem ficar colocando diretor e ator queridinho pra tentar vender mais. PKD morreu pobre, não por acaso. Acho que 'Blade Runner' nunca mais será batido... (e olha que Hollywood tentou detoná-lo tb, sem sucesso. Falo mais sobre ele outro dia).
07 fevereiro 2005
O Metallica ainda precisa de dinheiro???
Larry 'Lorenço' Lessig, que esteve no Fórum Social Mundial em PoA, mata a pau em sua coluna mensal publicada na Wired. Destaca que no próximo dia 13 rolla o Grammy de 2005. E destaca o trabalho duma banda chamada Wilco. O título da coluna é "Why Wilco is the Future of the Music".
Seguinte: quando sua gravadora, a Reprise (Warner), disse que 'Yankee Hotel Foxtrot' era uma bosta, a banda não vacilou. Colocou o play inteiro na Net. Bom, foi um sucesso! Aí outra subsidiária da Warner, a Nonesuch Records, recomprou os direitos. Pagou 3x o valor original... É só mais um exemplo da estupidez das gravadoras.
Mas legal mesmo é o trechinho da entrevista que Lorenço fez com Jeff Tweedy, líder da banda que concorre a 2 Grammys. Dois tapas-na-cara:
"The audience is our collaborator. We should be encouraging their collaboration, not treating them like thieves".
"If Metallica still needs money, then there's something really, really wrong".
03 fevereiro 2005
Travels
Se William Gibson tivesse o senso de ritmo do Dan Brown, "Reconhecimento de Padrões" teria vendido tanto quanto "O Código Da Vinci". A história é boa demais. Tracei o pacote de 409 páginas em tempo recorde (para meus padrões). Estranho o mergulho numa história bem início de século XXI logo após "O Velho e o Mar" e "Coração das Trevas". O choque é total. Linguagem, estrutura narrativa. É tudo muito diferente. Mas daí que caiu uma ficha daquelas. Há tempos sonho com um período 'sabático' na Europa, particularmente no 'mundo espelho' da Cayce Pollard, o Reino Unido. Vou novamente planejar o EXílio EXploratório pelas terras de Joyce, Hitchcock, Page, Bono, Gaiman, McKean e Connery. Para tanto já enfileirei dois títulos do Nick Hornby (de 'Alta Fidelidade'): "Febre de Bola" e "Grande Garoto". Depois devo cair em "Dublinenses", do Joyce. Vamos ver. (Whatafuckin' travel plan!)
Pra decorar o post escolhi uma foto/pintura digital do Dave McKean que tem o mesmo nome deste post: Travels. Lindona, não?
Voltando ao "Pattern Recognition": 'Levei um pato na cara a 300km/hora' (leia e entenderá). William faz viagens por Londres, Tóquio e Moscou. A riqueza de detalhes e a abundância de referências "cultura inútil" (moda, arte, pop, street, rock, cyber et caralho a quatro) é estonteante. Gibson é a maior enciclopédia viva de nossos tempos (depois da Wikipedia, obviamente). Ele não é só memória não. Pensa também! Tem tiradas fantásticas. Saca só a frase d'uma garota russa:
"Descobrimos que tudo que Lenin nos ensinou sobre comunismo era mentira. E tudo que ele falou sobre o capitalismo era verdade".
Não vou revelar muito da trama pra não estragar o prazer da leitura. Só reforço: leia o livro antes do filme. BTW, sobre o filme, três coisas:
1. O diretor deveria ser o Ridley Scott. Pra descontar tudo que ele deve desde 'Blade Runner'. Aliás, Ridley é citado no livro.
2. O filme tem chance de 'corrigir' o problema de ritmo do livro. Mesmo assim, se tiver menos que 150min será estranho.
3. Assim como Antonioni fez em 'Blow Up', 'Pattern Recognition' tem a chance de ser uma PUTA homenagem ao próprio cinema. Se todo o potencial 'multimídia' for corretamente explorado, testemunharemos a 1a grande arte do século XXI nascer. (Exagero? Sou otimista pracas!)
