20 março 2008

[1002] Paralamas do Sucesso | Severino (1994)

Pois é, o Paralamas é uma das ausências mais sentidas em "1001 Discos...". Se acharam espaço até para Carlinhos Brown, claro que cabia pelo menos 1 disco do trio fundado em Brasília no início dos anos 80. De todas as bandas do ápice do rock tupiniquim, o Paralamas foi a única a romper fronteiras de uma maneira mais notável. Tocou em Montreaux em 1987, faz sucesso na Argentina e angariou fãs na Europa. Nada parecido com os feitos do Sepultura, mas o Sepultura não é daquela turma (Legião, Titãs, Barão...)

Mas, qual disco do Paralamas deveria aparecer na seleção de discos que deveríamos ouvir antes de morrer? "Bora Bora" (1988) é divertido e tem "Quase Um Segundo". "Selvagem" (1986) marcou o início do fim da fase 'chicletinho-pop'. "Big Bang" (89) é pesado e com um instrumental riquíssimo. Bom, optei por "Severino", o maior fracasso de vendas da história da banda. Vendeu mais na Argentina do que por aqui.

Lançado depois do adocicado "Os Grãos" (91), "Severino" propõe um caminho totalmente diferente na carreira de Herbert (gtr e voz), Bi (baixo) e Barone (batera). Mais experimental, mais pesado (no som e nas letras), o disco causou estranheza em todos os fãs tradicionais. Só com o tempo e o lançamento do disco ao vivo "Vamo Batê Lata" (95) é que o pessoal começou a se acostumar com algumas músicas, principalmente "Rio Severino", "Vamo Batê Lata" e "Dos Margaritas". Não imaginam o que perdem por não ouvir as versões originais.

O disco abre com "Não me Estrague o Dia", poema curto mais falado do que cantado. O diálogo do milionário com o proletário. Apela, mas funciona. "Navegar Impreciso", que conta com participações de Tom Zé e Linton Kwesi Johnson, é uma pérola declamada. Anti-homenagem aos portugueses que na época, como os espanhóis agora, expulsavam brasileiros de suas terras. "Varal" segue na linha experimental, disfarçando a porrada que vem na seqüência: "Réquiem do Pequeno":

te falta o gesto largo, a ébria poesia
TE SOBRA A PEQUENEZA, AS PEQUENAS CERTEZAS
"El Vampiro Bajo del Sol" é puro Queen. Não por acaso, conta com a guitarra solo do próprio Brian May. Cortesia de Phil Manzanera, ex-guitarrista do Roxy Music, que produziu o disco. Sim, o disco foi produzido na Inglaterra.

Jogando vacas do décimo andar, Herbert se embriaga com "Dos Margaritas", para depois se afogar no melhor (único?) épico que já compôs: "Rio Severino". Esta música já havia aparecido em seu primeiro disco solo, "Ê Batumaré" (92), mas é a versão de "Severino" a definitiva. Seca como o chão do sertão:
és tu brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem
ACESSO FÁCIL A TODOS OS TEUS BENS
A versão original do disco se encerra com uma das mais bonitas baladas já compostas por Herbert, "O Amor Dorme", um som-homenagem ao filme "The Hunger" (Fome de Viver), de Tony Scott. A versão em CD tem duas faixas bônus, "Go Back" (dos Titãs) e "Casi un Segundo", versão em espanhol sobre um teclado de Egberto Gismonti. A capa e todo o trabalho gráfico do disco, espantoso-bonito-e triste, é de Gringo Cardia, usando como matéria-prima o trabalho de Arthur Bispo do Rosário.

"Severino" não é nada menos que obrigatório.

.:.

Pra quem pegou o bonde andando, entenda esta série.

2 comentários:

Victor Z. disse...

Eu ainda não li o livro, mas sendo um dos autores co-fundador da Rolling Stone eu imagino que a linha crítica seja a americana e os Paralamas nesse caso acho que são menos conhecidos dos americanos que o Sepultura.
Montreaux é leva musicos brasileiros aos seus palcos a décadas, acho que não serve como parâmetro para medir a popularidade de artistas.
Sem desmerecer de forma alguma o trabalho dos caras, só tentando entender a ausência.
Acho que dá pra fazer um livro desses só com discos brasileiros.

Paulo Vasconcellos disse...

Pois é Vitão,

mas acharam espaço para Carlinhos Brown!?! Dois discos do Caetano? Um do Chico? Sem desmerecer o trabalho desses caras, pelo menos dos dois últimos, mas a ausência segue inexplicada. Ainda mais de um disco como "Severino", tão "world music" (sic)...

E, olha só, o Paralamas tem mais vida lá fora do que eu expressei no texto. Meu "Bora Bora", por exemplo, é importado! Do Canadá!?! Como eu disse, eles têm uma vida lá fora bem maior que seus contemporâneos como Titãs, Legião, Barão, Lobão...

Mas tudo bem. Espero ter ajudado a compensar o esquecimento, hehe..

Abração,

Paulo