17 maio 2008

[1006-1007] Deep Purple | Burn (1974) | Come Taste the Band (1975)

Uai... 2 discos de uma vez? Pois é, não temos convenções nem regras aqui. E a motivação para a inserção dessas obras do Purple é o lançamento de "Good to be Bad", do Whitesnake. Foi indicado até na Veja?!? Som H3 (Hetero - Hard - Heavy) virou moda de novo? hehe.. Viadagens e sons cabeça-tristonhos devem ter dado no saco. Daí o novo bafafá em torno de Led, Coverdale e o bom e velho Hard Rock. Boa hora para colocar na vitrola dois discaços ignorados em "1001 Discos para Ouvir antes de Morrer".

1974. O Purple se desmanchava pela segunda vez. O fracasso de "Who do We Think We Are" (73) foi a gota d'água que faltava para Glover (bss) e Gillan (voz) deixarem o barco. O trio que ficou (Lord (kbd), Paice (drm) e Blackmore (gtr)) deu uma sorte danada e conseguiu arrancar o excepcional Glenn Hughes do Trapeze. Voz e baixo num só cara. Seria suficiente, mas os caras pegaram um vocalista também, um balconista chamado David Coverdale. Apesar da manutenção do núcleo da banda, a alteração no estilo do som é nítida. Um certo swing de origem estadunidense abre outros horizontes para a banda em "Burn". "Might Just Take Your Life", a 2ª faixa, é a que mostra a alteração de forma mais escancarada. Relativo alívio para a porrada que é "Burn", a faixa de abertura. O riff de abertura e os solos de Blackmore e Lord são puro Purple, coisa que não fica devendo nada para "Smoke on the Water". Mas tinha uma novidade ali no meio: duas vozes. Duas baita vozes. Enquanto Coverdale cuida da coluna da música, Hughes esgüela na ponte e no refrão. Puxa, se nossas duplas sertanejas fizessem 1% disso...

O disco é bem homogêneo, todo bom. Mas tem um ponto de destaque absurdo: "You Fool No One". A bateria do rock nunca tinha sido tão original até esta introdução do Paice - nada parecido fora gravado até então. É a única faixa em que Hughes e Coverdale cantam juntos o tempo todo.

Até então o Purple não era muito chegado em baladas. Só havia gravado "When a Blind Man Cries", um lado-B de "Machine Head" (72). Dá pra imaginar Coverdale sem baladas? Pois bem, sua estréia é com "Mistreated", um blues-baladão dramático pra chuchu. Aqui Coverdale inventaria uma de suas marcas registradas, o "baby baby baby". Aqui Blackmore faria seu último grande solo desta fase.

Ainda em 1974 eles lançariam "Stormbringer" e se desmanchariam de novo. O mala do Blackmore não aguentou a guinada no som da banda, cada vez mais USA-oriented (lá estavam a grana e as grandes turnês e as grupies mais gostosas - não necessariamente nest ordem).

Mas os caras deram sorte de novo: conseguiram convocar um dos melhores guitarristas da época, Tommy Bolin. Doidão eclético e muito talentoso que tocou com Zephyr (lembra Janis vitaminada), James Gang e no disco de jazz-fusion "Spectrum", do baterista Billy Cobham. Bolin só colocou uma condição: manteria uma carreira solo em paralelo. O cara estava numa fase de hiperprodutividade, a la Hendrix em 66-68, e precisava de mais veículos para despejar suas crias.

Para sorte nossa o momento da entrada de Bolin no Purple está bem documentada: dois discos, "Days may come and days may go" e "1420 Beachwood Drive" mostram os ensaios. Jams imensas com 10 e 12 minutos, improvisos e sons como "Statesboro Blues" e "Dance to the Rock & Roll" estão ali, gravados ao vivo numa garagem californiana.

Mas o ápice deste Purple Mark IV está em "Come Taste the Band", lançado em 1975. Logo na faixa de abertura, "Comin' Home", as diferenças entre Bollin e seu antecessor ficam claras. A guitarra agora é mais leve, solta. Tem menos "técnica de conservatório" e mais pó de estrada. O resto da banda, particularmente Hughes, parece adorar a mudança. Lord pega o clima com um teclado menos sisudo, mais pianinho. O disco segue assim, deixando pistas que caracterizariam muito do som que apareceria anos depois, na forma de Whitesnake's, Def Leppard's e todas as bandas de hard rock estadunidenses. Engraçado, mas muita gente não atribui tal "culpa" ao Purple de 75. Pô, escutem "Gettin' Tighter" e vejam quantas vezes aquela introdução foi surrupiada nos anos 80.

Era época de LP's - lado A, lado B. Naqueles tempos o produtor podia esconder algumas surprezinhas no lado "desprezado" dos discos. Está ali uma das baladas mais bonitas dos anos 70, "This Time Around". Hughes não escondia o tanto que gostava (e copiava) Stevie Wonder. Aproveitou esta faixa (sem Coverdale) para mostrar toda a influência de Wonder em seu jeito de compor e cantar. A faixa toda é levada só no baixo e no teclado de Lord - uma obra-prima. Que abre espaço para outra, "Owed to 'G'", faixa instrumental usada por Bolin para mostrar que também tinha muita técnica.

"You Keep on Moving" fecha o disco mostrando que o som de negão não pegara só Hughes, mas toda a banda. É a melhor faixa do disco, e mostra tudo que a banda poderia ter virado se não tivesse acabado ali. Pois é, um ano depois o doido do Bollin, que já vivia chapado, resolveu passar dessa pr'outra. E a banda se desmanchou pela última vez nos anos 70. Voltaria só em 84, mas essa é outra história.

26 abril 2008

[1005] Lenine | O Dia em que Faremos Contato (1997)

Ok, talvez seja um padrão: 1 disco nacional, 2 gringos. Este é o quarto complemento ao livro "1001 discos para ouvir antes de morrer".

Lenine, assim como Chico, já gravou disco ao vivo (InCité (2004)) na França. Tem uma bela coleção de fãs fora de Pindorama. Mas, como tantos outros, passou bem longe do radar de "1001..." que, como já acusei aqui, achou espaço até para o Carlinhos Brown. O lado exótico de nosso país-continente sempre merecerá mais espaço, não tem jeito. Não importa: entortou ou ignorou, a gente acha prumo. Sem necessidade de ricursos que minguam toadas outras.

Lenine já foi precoce; em 83 lançou um tal "Baque Solto" que ninguém (ou)viu. Tinha 23, mas sei nada de sua história. Ele só voltou em 93, com "Olho de Peixe", em dupla com Marcos Suzano. Violão, voz (nordestina) e pandeiro. Incompleto mas promissor. Faltava alguma coisa. Faltava estrada. Faltava contato.

"O Dia em que Faremos Contato", de 1997, achou tudo o que faltava. 4 anos de contato foram suficientes para Lenine lançar um dos melhores discos brasileiros dos últimos 20 anos. Eclético, completo, faminto. Sei nada da história dele, mas tenho certeza que ele tinha material para um álbum triplo! Deveria ter lançado... não fosse amarrado numa gravadora do século passado. Aliás, ele ainda estava no século passado. Sua música não.

Trip hop, samba, rock, maracatu, pop, frevo... Lenine pisa em tudo, com passos leves e bem marcados, sem esconder uma personalidade única. Mix inteligente é assim, completo e original. "A Ponte" abre o disco com uma comovente narração d'um garotinho-músico. Tem guitarra distorcida e brincadeiras róseanas: "Nagô, Nagô, Na Golden Gate".

A segunda faixa, "Hoje eu Quero Sair Só", é um clássico de 11 anos. A guitarra decorativa apareceria em qualquer lugar, até num Pink Floyd ou Gil. Pintou aqui, brigando com (não contra) um pandeiro (de Suzano, claro). "Vem cá, me deixa fugir. Me beija a boca. Às vezes parece que a gente deu um nó. Hoje eu quero sair só..." A lua, que já apareceu em outros Lenines de forma igualmente poética, aqui o chama: "Eu tenho que ir pra rua" ("A Lua me Chama"). Quem não tem o disco perde o maravilhoso epílogo (só grafado no encarte):

"Homem solteiro é lobo solitário: a neve não cai no chão onde ele pisa. Ninguém pegue no meu pé, nem pise na minha pegada.
Homem sozinho à noite é caçador e caça, fica uma trilha de desejos e assombros por onde passamos, eu e minha sombra..."

Como escrito, no disco anterior são basicamente dois instrumentos. Agora Lenine tinha uma "orquestra" ao seu dispor. Seu violão corria o risco de virar rabisco. Não vira, graças ao baixo de Liminha (adorável antipático onipresente) e a produção de Chico Neves. Seguem-se "Candeeiro Encantado" (É Lamp!) e "Etnia Caduca", marcas fortes da origem nordestina, pernambucana e nada provinciana. Até que pinta "Distantes Demais", dueto com Dudu Falcão (na composição) e outro com Toninho Ferraguti (na execução, tocando acordeom). A voz de Lenine se transfigura, é quase feminina. Linda.

A faixa que dá nome ao disco é um achado. Os efeitos do Chico Neves desenham um disco voador perfeito (olha que sou de Varginha! Sei do que falo). Samba moderno, sem rock, com letra que todo samba deveria ter. Perdão: eu deveria transcrever um pedacinho. Impossível. A letra toda é fantástica.

Assim como é fantástica a 8ª faixa, "Aboio Avoado", que dura um minuto exato. Sem instrumentos, sem nada. Só a voz de Lenine. Já a mixei em vários momentos, mas Chico Neves tá certo: como abertura de "Dois Olhos Negros" ela é imbatível. Aliás, "Dois Olhos Negros" é imbatível. Quase... a versão no "Acústico MTV", com Igor "Sepultura" Cavalera na batera, consegue ser melhor. Duvida?

Se este disco tem um pecado é o fato de "Pernambuco Falando para o Mundo" não fechar o disco. Encerramento que seria perfeito. Pedir demais do Chico (Neves), né? A faixa é um mix-homenagem: Luis Bandeira ("Voltei Recife"), Capiba ("Frevo Ciranda"), Alceu Valença ("Sol e Chuva") e Chico Science ("Rios, Pontes e Overdrives") - 4 gerações e estilos de Pernambuco - maravilhosamente compilados num único som. Lenine é gênio (quando quer).

A capa, retrô, foi surrupiada do livro "O Homem Eterno" - da série Futurâmica da Ediouro. Belo achado - bela sacada. Tanto quanto o Zéfiro da capa de "Barulhinho Bom", de Marisa Monte (outra sentida omissão de "1001...". Ou seja, tenho muita matéria prima pra queimar!).

06 abril 2008

[1004] R.E.M. | Fables of the Reconstruction (1985)

O R.E.M. ganha a mídia de novo, com o lançamento de Accelerate. Há 4 anos eles não lançavam um disco de estúdio. Mas a agitação tem outro motivo: depois de Up (1998), Reveal (2001) e Around the Sun (2004), o REM resolveu pegar pesado de novo. Os tic-tacs eletrônicos cedem espaço para uma bateria de verdade; a guitarra ficou distorcida de novo, não como em Monster (1994), mas bem mais pesada do que aquela dos últimos discos. O REM sempre foi assim, uma banda em eterna metamorfose - com várias idas e vindas. Em seus quase 30 anos de carreira, algumas pérolas ficam perdidas. A maior delas é Fables of the Reconstruction, 3º disco da banda, lançado em 1985.

Claro, o REM não foi ignorado em "1001 discos..." Marcou presença com Murmur (1983), Document (1987), Green (1988) e Automatic for the People (1992). Quatro discos! Então, qual a razão para acrescentar o desconhecido "Fables.."? Simples: é o álbum mais injustiçado dos 14 lançados pelo REM.

Lá em 85 o REM ainda era rotulado como "college band", "guitar band" e outras bobeirinhas de críticos. Seus dois primeiros discos detonaram nas rádios universitárias. Eram muito parecidos. Mesma produção, mesmo ambiente, mesmo estilo de composição. Mesmo tipo de engano inocente cometido pelos contemporâneos do U2. Banda nova quer experimentar e aprender, esticar e empreender. A rotina mata. O REM trocou Athens (Georgia) por Londres. Trocaram também de produtores, escolhendo Joe Boyd, que nos 70's havia trabalhado com gente como Fairport Convention e Nick Drake. Era mudança pra valer.

Engana-se quem pensa que o som envelheceu. Claro, o efeito "modernizante" não foi tão chocante quanto aquele que Brian Eno conseguiu com o U2, mas o REM nunca mais seria o mesmo. Tudo que os transformou em superbanda conhecida mundialmente foi rabiscado e tentado em "Fables..."

"Feeling Gravitys Pull" abre o disco com a mesma força que "Drive" abre "Automatic..." "Maps and Legends", a 2ª faixa, é a cara de "Losing my Religion". "Driver 8" remonta o antigo REM, enquanto "Old Man Kensey" mostra aqueles backing-vocals que se tornariam uma das várias marcas registradas da banda. A sexta faixa, "Can't Get There from Here" é quase um funk, alegre e com muito swing. Estilo que se repetiria com mais sucesso em outros discos. A guitarra de Peter Buck nunca foi tão original. A voz de Michael Stipe nunca foi tão seca, o oposto de seu estilo tradicional.

Talvez para não assustar tanto, a música seguinte volta ao "velho" REM de "So. Central Rain" e afins. Trata-se de "Green Grow the Rushes", simples e eficiente.
E segue assim por três faixas, nítido porto seguro da banda e do produtor. Até que chega "Good Advices" que, ao lado de "Maps..", "Driver 8" e "Can't Get..." é um dos melhores momentos do álbum. Stipe lembra que "home is a long way away". Clara saudade. Se terminasse por aqui já estaria acima da média, mas eles trataram de fazer um dos melhores encerramentos de discos de todos os tempos. Colada em "Good Advices" começa "Wendell Gee", uma balada tão bonita que dói. Levada num mandolin que retornaria no disco "Green" de 88, em outra balada obrigatória do REM, "You are the Everything".

A capa do disco, como quase todas dessa fase da banda, é poluída e meio tosca. Vale mais a enigmática montagem que aparece na parte interna do encarte. Mas, imbatível mesmo é a brincadeira que o título do disco permite: "Fables of the Reconstruction" é grafado de tal forma que também permite outra leitura: "Reconstruction of the Fables".

O REM já estava pronto - reconstruído. O mundo ainda demoraria uns 3 discos pra saber; pra entender. "Fables..." é um disco perfeito demais para uma banda iniciante. Talvez seja por isso mesmo que fique jogado num canto toda vez que alguém tenta listar os melhores momentos do REM.

30 março 2008

[1003] Morphine | Cure for Pain (1993)

Outra inexplicável omissão de "1001 Discos para ouvir antes de morrer" é o Morphine. Banda estadunidense de Massachusetts, foi uma das mais originais do início dos anos 90. Pois é, do mesmo período "grunge". Críticos e mídia só tinham olhos e orelhas para o que saía de Seattle. Até surgir o Morphine, a mais independente das bandas independentes do final do século passado.

O Morphine é um power trio que guarda poucas semelhanças com os clássicos trios (Hendrix Experience, Cream, ...). Se aqueles giravam em torno do guitarrista, o Morphine simplesmente dispensou o mais básico dos instrumentos rock. Dana Colley (sax) e Jerome Deupree (bateria) amparam o trampo de Mark Sandman (baixo e voz, algumas guitarrinhas, violões e teclados), líder e principal compositor. Detalhe: na maioria dos sons e shows, Sandman toca um baixo que tem só duas cordas.

O primeiro disco dos caras, "Good" (92), já mostra a originalidade da banda. Um mix único de rock, blues e jazz, sem nenhum tipo de sofisticação. Soa cru, direto, áspero. Mas tem momentos muito sutis, como "You Look Like Rain", que poderia pintar em qualquer disco do início de carreira do Tom Waits. Aliás, como este, Sandman é um beatnik tardio.

Mas é "Cure For Pain" (93) que consolida a proposta da banda. Mais rico que o anterior, flerta também com o folk na belíssima "In Spite of Me". O mandolin (contribuição de Jimmy Ryan) lembra um pouquinho "Going to California", do LedZep. A voz sussurrada de Sandman nesta música prova sua versatilidade.

"Dawna", um triste solo de sax, abre o disco. Prólogo contra-mão para o swing de "Buena", que é construído com um impressionante riff de baixo. Dana só aparece no refrão, solando em cima (ou atrás) da voz seca de Sandman. "All Wrong" mostra o trio curtindo o mesmo riff. Nela percebemos claramente a riqueza da bateria de Deupree, nada convencional. Ao contrário do que diz a Wikipedia (destino de todos os links deste post), Deupree só é substituído por Bill Conway em 3 faixas deste disco.

Sandman é cheio de músicas-dedicatórias. No disco anterior já tinham pintado "Claire" e "Lisa". Agora ele fala para "Sheila", "Mary (won't you call my name?)" e "Candy". Suas letras são bêbadas...

Candy said she's made arrangements for me in the sand
And Candy said she wants me with her down in Candyland
... e viajandonas ("A Head with Wings"):
Now I'm floating around up here way above the clouds
So high about the ground
And the only thing that holds my head to the ground
Is this one little skinny string
I got a head with wings
A head with wings
E em "Cure for Pain", nona música do disco, ele vai direto ao ponto:
Someday there'll be a cure for pain
That's the day I throw my drugs away
When they find a cure for pain
A última música é instrumental, um sincero "Miles Davis' Funeral".

Seis anos e 3 discos depois, em julho de 99, Sandman passaria desta para uma melhor. Se foi sem experimentar ou testemunhar a cura. Teve um ataque cardíaco fulminante no palco, logo no início de um show. Deixou uma obra que mostra a falta de regras e fronteiras do mundo do rock. "Cure for Pain" é um bom ponto de partida para conhecer um pouco dessa cabeça com asas.