Obedeço às leis de produção de um produto como outro qualquer, e não vejo mal nenhum nisso. A grande diferença, que talvez seja a mais notada, e que ilude aos mais desatentos, venha do fato de que valorizo determinadas etapas de produção que outros diretores, por suas razões, não valorizam tanto: o ensaio, o trabalho com os atores, o estabelecimento de oficinas de criação e um processo colaborativo. Para mim, isto é fundamental, mas, repito, a matemática final é a mesma para todos, portanto, troco sempre minha listinha acima por gruas mirabolantes etc... Os caríssimos efeitos especiais, pela ilusão. Não há nada que uma lente não possa fazer. Sou simples...
- Luiz Fernando Carvalho (Diretor de "A Pedra do Reino").
13 junho 2007
Scratch #087
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A Pedra do Reino
E coloca risco nisso! O primeiro capítulo da micro-série, que passou ontem, foi uma vertigem pura. Que experiência!
Só não foi 100% inédita porque já vi "Lavoura Arcaica" umas 5 vezes. Então pintaram vários "déjà-vu":
- As cenas do Quaderna na cadeia lembram demais o início de "Lavoura", com o André (personagem do Selton Mello) "preso" em um quarto de pensão. O jogo de sombras, o monólogo "epilético", apressado e desesperado;
- Quaderna menino "rouba" Rosa de uma quadrilha (dança), e se esconde com ela em um casebre que parece abandonado. Quando se deitam sobre palhas copiam, no quadro e na beleza, uma cena de André e Ana (personagem de Simone Spoladore);
- A câmera é dinâmica, realça os discursos distorcendo as imagens. Acho que são fotógrafos diferentes, mas o Luiz Fernando Carvalho conseguiu os mesmos efeitos. A única diferença marcante está na cor. "Lavoura" é cinza. A "Pedra" é amarela.
[Break para o almoço. Comentário da mama: "Você gostou da série? Nossa, não gostei não. Aquela gritaria. Muito teatral. Eu não gosto de teatro".]
Não falei, mas também não gosto de teatro. Aliás, não tenho experiência suficiente pra saber se gosto. Mas entendi bem o que minha mãe quis dizer: chama a atenção a interpretação "over" de todos os personagens. "Over acting"... é intencional. O Luiz Fernando está experimentando. E usando a vênus platinada como balão de ensaio.
No Globo do último domingo pintou uma entrevista com o diretor de "A Pedra do Reino". Vou surrupiar alguns trechinhos:
"Procuro trabalhar de uma forma mais inquieta com o universo da literatura, ficando mais aberto para as visões que a leitura evoca. Minhas tentativas com os textos do Projeto Quadrante serão sempre uma resposta criativa à leitura. Eu recuso a idéia de adaptação. Acho isso uma coisa redutora, como se este modelo esquematizasse, enquadrasse, engavetasse as entrelinhas dos textos.
"Não tenho a pretensão de ser autor, mas tenho a necessidade de criar, sou um criador respeitando a síntese dos autores. Aprendi a lidar com essa contradição, que hoje significaria dizer o mesmo que ser um diretor autoral na TV.
... "Não vejo "A Pedra do Reino" como cinema. Gostaria de insistir que é um projeto de TV e para a TV.
"'A Pedra do Reino', no cinema, seria um filme visto pelas classes média e alta. Infelizmente, em função dos preços dos ingressos, do número reduzido de salas, o cinema se elitizou brutalmente. Por isso, é uma alegria muito grande poder oferecer a todo o país uma literatura como a de Ariano."
O Projeto Quadrante é isso: levar cultura de verdade para nossa pobre TV. Mas o Luiz Fernando arriscou muito - a proposta de "A Pedra do Reino" é radical demais. Talvez seja um "choque" necessário. Mas acho que ele não vai atingir todo mundo que ele queria. Né mãe?
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25 maio 2007
Só o Fogo da Poesia Pode Descrever
O título acima foi surrupiado da propaganda de "A Pedra do Reino", micro-série que a Globo estréia no próximo dia 12/jun. Parece que, uma vez a cada dois anos, o público da TV aberta será presenteado com uma obra de arte.
"A Pedra" é dirigida por Luiz Fernando Carvalho, o mesmo de "Hoje é Dia de Maria". Luiz Fernando é um diretor único - uma exceção na televisão tupiniquim. Um cara que não se deixa prender nas normas e padrões da telinha. Arquiteto e desenhista, ele não tem medo de arriscar. Os primeiros capítulos da novela global "Renascer", filmados com técnicas só utilizadas no cinema, mostraram bem as ambições do Luiz Fernando.
Mas não é só uma questão de imagem, de estética. Luiz Fernando persegue histórias boas. É um excepcional contador de boas histórias. E parece ter uma queda por textos difíceis. Brigou muito para fazer "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar. Talvez seja o único "filme de AUTOR" tupiniquim desde os tempos do Glauber. Luiz Fernando brigou tanto, que só liberou a versão em DVD quando conseguiu lançá-lo como planejado: um DVD duplo que documenta todo o projeto. Cinema em Pindorama parece exercício para heróicos sadomasoquistas. Para os padrões do Luiz Fernando, vira um verdadeiro calvário. Por um lado isso é ruim, quem sabe quando ele vai se aventurar de novo na telona? Mas, por outro lado, isso é muito bom: Luiz Fernando tem a chance de falar com um público maior, mais heterogêneo e muito carente, os telespectadores.
Por isso ganhamos "Hoje é Dia de Maria" e agora em junho ganharemos "A Pedra do Reino". Quem viu as propagandas já deve ter levado um belo susto. Poesias e repentes declamados por personagens que brilham e exageram em seus gestos e vestes. Cultura do sertão nordestino. Mais uma adaptação de uma obra de Ariano Suassuna. Só não esperem nada parecido ou engraçado quanto "O Auto da Compadecida". A mini-série e o filme de Guel Arraes foram legais e bem populares. A proposta do Luiz Fernando é um tanto mais arriscada.
Aliás, um risco (muito bom) que parece que a Globo quer correr. "A Pedra do Reino" faz parte do Projeto Quadrante. Outras três adaptações estão previstas: "Capitu" (baseada na obra de Machado de Assis - RJ), "Dançar Tango em Porto Alegre" (Sérgio Faraco - RS) e "Dois Irmãos" (Milton Hatoum - AM). Que dê certo. E que os futuros quadrantes contemplem Guimarães Rosa - MG, de preferência sob os cuidados de Luiz Fernando Carvalho.
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