Mostrando postagens com marcador junkyage*. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador junkyage*. Mostrar todas as postagens

25 setembro 2009

Junkyage* :: Ian Slater

Ano 0 | Episódio 4

Todos diziam que Ian não tinha motivo nenhum para fazer o que fez. Herdeiro de um sobrenome nobre, Slater, Ian podia ter tudo o que queria na vida. Pelo menos era o que diziam todos os moradores de Belper. Não era o que Ian pensava. Sentia-se sufocado por aquela pompa toda. Sentia-se perdido por ser conhecido por todo o vilarejo.

Ian era o caçula entre 7 irmãos. Sétimo filho de um sétimo filho. Mas nem todos entendiam o apelido da época da escola. Gordinho, baixinho e encrenqueiro, não precisava mais nada para ser o principal alvo dos colegas. Mas ele tinha algo mais: era o mais rico da turma. Seu pai negava o parentesco distante com o Slater famoso. A origem de sua fortuna o desmentia.

Ian detestava aquilo tudo. E nunca cogitou assumir a cadeira do pai, apesar de ser o preferido. Havia nascido  num dia muito traumático para os ingleses. No início da noite de 14 de novembro de 1940, Coventry estava sendo bombardeada. Naquele mesmo momento, no porão de sua casa, Ian chegava ao mundo pelas mãos de um médico que não conseguia disfarçar sua bebedeira.

Cresceu detestado pelos irmãos e colegas. Chegou aos quinze anos sem entender todo aquele ódio e ciúme que atraia. Só tinha certeza de que não tinha feito nada para merecer aquilo. E tentava recusar os agrados e mimos, os presentes e elogios. Sem sucesso. Ian era detestado. E um dia resolveu devolver tudo na mesma moeda.

.:.

Era uma noite gelada de janeiro. Ian simulou um mal estar e pediu licença para ir mais cedo para a cama. Travesseiros indicavam sua presença ali. Ele estava sozinho na fábrica do pai. Pegou as chaves no escritório da casa. Espalhou óleo por todo o galpão. Sem pressa. Sabia que ninguém sentiria sua falta. Foi até a sala do pai e revirou todas as mesas e gavetas. Nem esperava encontrar todo o dinheiro que achou ali. Pegou tudo, distribuindo entre os bolsos da calça e do paletó. Pensou num bilhete, mas quem acharia um bilhete queimado?

O clarão fez os mais velhos se lembrarem dos bombardeios. Mas a guerra havia terminado 10 anos atrás. A cidade inteira correu para a fábrica do Sr. Slater. Vários eram os palpites, mas nada em Belper diminuiria o poder destrutivo daquele fogo.

Ian interrompeu sua caminhada entre árvores. Lembrou da mulher de Lot mas resolveu olhar para trás, para apreciar um pouco mais sua obra prima. Se assustou com o tamanho do estrago, com a altura das chamas. Quase se arrependeu. Mas pensou no que sofreu. Se lembrou do que não mereceu. Ameaçou um aceno e seguiu seu rumo.

Ian Slater quer embarcar num navio no porto de Liverpool.

Junkyage* :: Vera Bridges

Ano 0 | Episódio 3

Há 2 anos Vera fugiu do orfanato de Pawtucket. Tinha acabado de completar 16 anos e já não tinha mais esperança nenhuma em ser adotada. Duas famílias tinham manifestado interesse, quando ela ainda era bem mais nova. Mas seu comportamento agitado, agressivo, espantava todo mundo. O orfanato era na verdade uma pequena extensão da principal igreja católica da cidade. Tinha pouco mais de uma dúzia de meninas que foram abandonadas por seus pais. Como Vera, todas deviam ser filhas de operárias solteiras que não tinham condições de alimentar outra boca.

Vera foi encontrada na ponte da avenida principal. Por isso o pessoal da igreja resolveu batizá-la como Vera Bridges. Mesmo antes de começar a andar, Vera já mostrava um comportamento difícil. Recusava mamadeiras dos mais diversos tipos. Mas tinha uma saúde de ferro. Pelo que se sabe, nunca adoeceu. Mas cresceu uma menina franzina, de poucas curvas. Era constante alvo de chacota das colegas, que diziam que ela parecia e andava como um menino. Vera tinha passos duros. Mas era elegante, altiva.

Planejara a fuga por longos 3 meses. Aconteceria logo após a aula dominical, quando normalmente a igreja ficava repleta de crianças acompanhadas dos pais e outros familiares. Talvez demorassem meia hora, pouco mais ou pouco menos, para sentirem sua falta. Era tempo suficiente para ela plantar falsas pistas sobre seu destino.

Vera simulou uma ida para Boston. Fez questão de mostrar bem o rosto de traços fortes quando comprou a passagem de ônibus que nunca utilizaria. Também passou pela estação momentos antes do embarque, saco de viagem na mão, fazendo de tudo para ser percebida. Minutos antes da partida do ônibus se escondeu no banheiro, trocou a roupa e os sapatos, prendeu os cabelos e saiu de lá como outra pessoa.

Vera havia convencido John, um cara de 22 anos que trabalhava na fábrica de tecidos, a levá-la dali. Queria ir para Nova York. John disse que o máximo que conseguiria fazer era deixá-la em Springfield. Todo domingo ele levava uma encomenda de tecidos para Palmer. Seria fácil justificar um pequeno atraso de meia hora na viagem. Em troca de um beijo que se transformou em uns amassos forçados, John prometeu não contar para ninguém que a havia ajudado.

.:.

Estamos no dia 27 de setembro de 1955. É fim de uma triste tarde de outono em Nova York quando Vera se lembra que é seu aniversário: 18 anos. Queria um trago de whisky para comemorar. Se contenta com um cigarro. Se lamenta com um suspiro. Mas tem um alívio: não precisa mais mentir sobre sua idade. Escapou ilesa, se sujeitando a trabalhos que ela jurou nunca mais fazer.

Vera dividia um apartamento de 2 quartos no Brooklin com uma velha e outras 3 meninas. Todas estavam ali fugindo de alguém ou de alguma coisa. Só a velha que não - havia desistido de fugir há muito tempo. E sobrevivia alugando um quarto com 2 beliches para meninas sem idade nem documentos. Seu filho gostava de passar ali uma vez por semana, para descolar alguns trocados e bulir com as garotas. De Vera ele não chegava perto. Tinha medo. E vivia dizendo para a mãe tomar cuidado com aquela vagabunda esquisita. "Ela é a única que me paga em dia", justificava a velha.

Na verdade a velha nutria uma simpatia especial por Vera. Mas não era correspondida. Vera retrucava com "sim" e "não" o questionário cotidiano. Só uma garota, Cecille, conseguia a atenção de Vera. Cecille tinha planos mirabolantes e uma história difícil de acreditar. Foi a primeira pessoa a arrancar gargalhadas de Vera Bridges em quase 18 anos de vida.

Junkyage* :: Jules Boutine

Ano 0 | Episódio 2

Jules Boutine é filho de uma puta de Nova Orleans. Nasceu no dia 13 de agosto de 1942. Delia, a mãe, desconfia ou deseja que o pai seja aquele moço saudável e bonito de Palestine, Texas. Bill qualquer coisa era o nome dele. Patrocinado pelo pai, corria as cidades do sul tentando escapar de uma convocação para a guerra. "Evite as grandes cidades", aconselhou o velho pai. Mas Nova Orleans tinha tentações demais para ser ignorada.

Delia era uma morena bonita, resultado de gerações de misturas nunca reconhecidas. A avó era escrava. A mãe, segundo amigos mais velhos, a puta mais linda que aquela cidade já conhecera. Cresceu no bordel e tentou cantar. O posto era mais concorrido que as camas. Até que tinha algum talento, mas ele ficou reservado para poucos clientes fiéis.

Até o nascimento de Jules trabalhou na cozinha. Não tinha jeito com o básico, mas todos diziam que seu feijão vermelho era imbatível. Tentou voltar para seu posto, atendendo pedidos. Mas já não conseguia conciliar a vida noturna com os afazeres de mãe.

As colegas ajudaram na criação de Jules. O dono da casa relutou, mas aceitou que mãe e filho ali permanecessem. O menino era quietinho demais.

Aos 9 Jules já ajudava na manutenção da casa, lavando pratos ou varrendo o palco. Era a parte que ele mais gostava: varrer o palco. Fazia da vassoura uma parceira de dança, um microfone ou um trombone. Passava horas ali, imaginando o melhor jazz já tocado em todos os tempos.

Fez amizade com os músicos. Virou mascote da banda fixa. Era branquelo demais perto deles. Era preto demais para os brancos da cidade. Era sempre repreendido nas ruas, fosse usando algo destinado aos negros, fosse usando algo destinado aos brancos. Aceitava quieto e sem entender.

Pouco falava com a mãe. E nunca quis saber quem era seu pai. Quando alguém tocava no assunto ele simplesmente saia de perto. Mais velho, desconversava: "Eu não tenho pai".

.:.

Todos achavam normal a quietude de Jules. E se divertiam, escondidos, com os shows imaginários que ele dava enquanto limpava o palco do bordel. Até que um dia Jules sumiu. Delia ficou desesperada. As amigas diziam que ele voltaria. Voltou, dois dias depois, sem esboçar nenhum tipo de explicação: "Andei por aí."

Os sumiços ficaram mais frequentes e longos. Jules subia e descia o Mississipi, acompanhando bandas de segunda em algumas vezes, sozinho outras tantas. Um dia criou coragem e foi bater em Memphis. Ficou sabendo de uma coisa diferente que estava acontecendo por lá. Um som diferente. Ficou quase um mês, mentindo sobre a idade e fazendo qualquer tipo de bico que lhe garantisse alguns trocados.

Mas sempre voltava. Calado, mas agora um pouco mais alegre. Pediu que o dono da casa trouxesse alguns caras de Memphis para tocar ali. O cara não viu sentido em gastar tanta grana com o transporte e hospedagem de uma banda que nem jazz fazia direito. Jules queria estar perto dos caras e avisou para a mãe que desta vez iria sem a certeza de voltar tão cedo. Delia tentou argumentar que um moleque de 13 anos não pode andar por aí, sozinho.

Jules Boutine disse que não estaria sozinho, embrulhou uma calça e três camisas, emprestou 14 dólares e se mandou para Memphis.

Junkyage* :: Bob Van Gogh

Ano 0 | Episódio 1

Deveria se chamar apenas José Roberto de Souza. Mas a mãe brigou. Contra a saudade e as memórias ruins. Contra as irmãs e o viadinho do cartório de Salvador que não queria registrar o sobrenome desconhecido de um pai sumido que desconhecia a existência do filho. Marina teimou, ameaçou e colocou um Van Gogh na graça do primogênito.

José Roberto de Souza Van Gogh nasceu em Nazaré, Bahia, no dia 21 de janeiro de 1939. Dona Nhanhá, a parteira, estranhou os olhos verdes do mulatinho. Dos noventa e tantos rebentos que ela ajudou a pôr no mundo, nenhum era tão diferente. Forte, pesado e de choro firme, grave.

Na realidade, Marina não sabia nem nome nem sobrenome do pai. Sabia que tinha um "Van" qualquer coisa. Sabia que ele era holandês e que uma vez por ano fazia negócios em Salvador. Um dia ele apareceu em Nazaré, acompanhado de dois amigos. Passaram a noite ali. Uma noite apenas.

Van qualquer coisa soltou, no máximo, 7 ou 8 palavras em um português estranho e mascado. Marina não ligou. Se apaixonou. Se entregou para ele nos fundos da melhor casa da cidade. Quatro meses depois, quando já não conseguia esconder o barrigão, virou a vergonha da cidade. Seu pai a levou para Salvador - casa da tia. Mas ela retornou. Queria que o fruto daquela paixão instantânea brotasse em sua terra natal. Na terra onde ele foi concebido.

Rezou para que não viesse uma menina. Fez promessa. Sua casa já era cheia de mulheres. E ela queria alguém que a fizesse lembrar do Van.

Antes de ir ao cartório de Salvador, decidiu que o filho carregaria o sobrenome do pai, mesmo que fosse um sobrenome inventado. Com a criança no colo foi até a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho. Ainda não queria a benção nem o batismo. Queria apenas que o padre lhe dissesse quem era o holandês mais famoso do mundo. "Vincent Van Gogh", ele respondeu, sem entender a razão da pergunta. Marina pediu que ele escrevesse o nome, agradeceu e saiu correndo, com um largo sorriso no rosto. Nem quis saber porque aquele Van era tão famoso.

.:.

José Roberto, Zezinho, cresceu paparicado pela mãe, avó e as 9 tias. "Desse jeito acaba virando pederasta", berrava o avô, já conformado e igualmente apaixonado por aquele neto diferente, talentoso e simpático. Zezinho dava a impressão de que poderia fazer qualquer coisa. Era bom em trabalhos manuais e também nos braçais. Ajudava o avô na roça, a avó na cozinha e as tias nos bordados. Nadava como ninguém e todo sábado corria para o litoral. Só não tinha jeito com os pés - virou goleiro. Mas não por muito tempo.

Aos 12 já tinha curiosidade demais em saber quem era seu pai. Marina, coitada, tinha pouco mais de 30 minutos de lembranças. No escuro. Sentia seu coração se apertar toda vez que Zezinho tocava no assunto. Mas destampava a falar e não parava mais. Inventou mil histórias sobre o Van qualquer coisa. E sempre terminava dizendo que ele ia voltar. Um dia ele ia voltar.

Aos 16, Zezinho desistiu de esperar. Nas andanças por Salvador descobriu tudo o que podia saber sobre os holandeses que passavam por ali. Nos intervalos das pesquisas, quebrava corações. Devia ter umas 33 namoradas só na capital. Fora aquelas da praia. E a branquela lindíssima que conhecera em Porto Seguro. Mas Zezinho tinha uma missão.

Comunicou tias e mãe de forma breve. Beijou cada uma, sempre com a mesma promessa: "Um dia eu volto". A mãe tinha certeza que sim. A mesma certeza que tinha em relação ao Van qualquer coisa. Mas chorou... Chorou por 45 dias consecutivos. Ficou doente e quase morreu. Mas em nenhum momento ela tentou segurar o seu filho. Ela sabia que não adiantaria. Só pediu uma coisa, que ele lhe mandasse cartas. Tinha aprendido a ler com ele. Gostava dos escritos e das histórias dele. Ele jurou que mandaria cartas: "Uma por semana mãe, eu prometo".

No barco que ia para Havana, trabalhando como ajudante de cozinheiro, Zezinho virou Bob Van Gogh.

17 maio 2008

[1006-1007] Deep Purple | Burn (1974) | Come Taste the Band (1975)

Uai... 2 discos de uma vez? Pois é, não temos convenções nem regras aqui. E a motivação para a inserção dessas obras do Purple é o lançamento de "Good to be Bad", do Whitesnake. Foi indicado até na Veja?!? Som H3 (Hetero - Hard - Heavy) virou moda de novo? hehe.. Viadagens e sons cabeça-tristonhos devem ter dado no saco. Daí o novo bafafá em torno de Led, Coverdale e o bom e velho Hard Rock. Boa hora para colocar na vitrola dois discaços ignorados em "1001 Discos para Ouvir antes de Morrer".

1974. O Purple se desmanchava pela segunda vez. O fracasso de "Who do We Think We Are" (73) foi a gota d'água que faltava para Glover (bss) e Gillan (voz) deixarem o barco. O trio que ficou (Lord (kbd), Paice (drm) e Blackmore (gtr)) deu uma sorte danada e conseguiu arrancar o excepcional Glenn Hughes do Trapeze. Voz e baixo num só cara. Seria suficiente, mas os caras pegaram um vocalista também, um balconista chamado David Coverdale. Apesar da manutenção do núcleo da banda, a alteração no estilo do som é nítida. Um certo swing de origem estadunidense abre outros horizontes para a banda em "Burn". "Might Just Take Your Life", a 2ª faixa, é a que mostra a alteração de forma mais escancarada. Relativo alívio para a porrada que é "Burn", a faixa de abertura. O riff de abertura e os solos de Blackmore e Lord são puro Purple, coisa que não fica devendo nada para "Smoke on the Water". Mas tinha uma novidade ali no meio: duas vozes. Duas baita vozes. Enquanto Coverdale cuida da coluna da música, Hughes esgüela na ponte e no refrão. Puxa, se nossas duplas sertanejas fizessem 1% disso...

O disco é bem homogêneo, todo bom. Mas tem um ponto de destaque absurdo: "You Fool No One". A bateria do rock nunca tinha sido tão original até esta introdução do Paice - nada parecido fora gravado até então. É a única faixa em que Hughes e Coverdale cantam juntos o tempo todo.

Até então o Purple não era muito chegado em baladas. Só havia gravado "When a Blind Man Cries", um lado-B de "Machine Head" (72). Dá pra imaginar Coverdale sem baladas? Pois bem, sua estréia é com "Mistreated", um blues-baladão dramático pra chuchu. Aqui Coverdale inventaria uma de suas marcas registradas, o "baby baby baby". Aqui Blackmore faria seu último grande solo desta fase.

Ainda em 1974 eles lançariam "Stormbringer" e se desmanchariam de novo. O mala do Blackmore não aguentou a guinada no som da banda, cada vez mais USA-oriented (lá estavam a grana e as grandes turnês e as grupies mais gostosas - não necessariamente nest ordem).

Mas os caras deram sorte de novo: conseguiram convocar um dos melhores guitarristas da época, Tommy Bolin. Doidão eclético e muito talentoso que tocou com Zephyr (lembra Janis vitaminada), James Gang e no disco de jazz-fusion "Spectrum", do baterista Billy Cobham. Bolin só colocou uma condição: manteria uma carreira solo em paralelo. O cara estava numa fase de hiperprodutividade, a la Hendrix em 66-68, e precisava de mais veículos para despejar suas crias.

Para sorte nossa o momento da entrada de Bolin no Purple está bem documentada: dois discos, "Days may come and days may go" e "1420 Beachwood Drive" mostram os ensaios. Jams imensas com 10 e 12 minutos, improvisos e sons como "Statesboro Blues" e "Dance to the Rock & Roll" estão ali, gravados ao vivo numa garagem californiana.

Mas o ápice deste Purple Mark IV está em "Come Taste the Band", lançado em 1975. Logo na faixa de abertura, "Comin' Home", as diferenças entre Bollin e seu antecessor ficam claras. A guitarra agora é mais leve, solta. Tem menos "técnica de conservatório" e mais pó de estrada. O resto da banda, particularmente Hughes, parece adorar a mudança. Lord pega o clima com um teclado menos sisudo, mais pianinho. O disco segue assim, deixando pistas que caracterizariam muito do som que apareceria anos depois, na forma de Whitesnake's, Def Leppard's e todas as bandas de hard rock estadunidenses. Engraçado, mas muita gente não atribui tal "culpa" ao Purple de 75. Pô, escutem "Gettin' Tighter" e vejam quantas vezes aquela introdução foi surrupiada nos anos 80.

Era época de LP's - lado A, lado B. Naqueles tempos o produtor podia esconder algumas surprezinhas no lado "desprezado" dos discos. Está ali uma das baladas mais bonitas dos anos 70, "This Time Around". Hughes não escondia o tanto que gostava (e copiava) Stevie Wonder. Aproveitou esta faixa (sem Coverdale) para mostrar toda a influência de Wonder em seu jeito de compor e cantar. A faixa toda é levada só no baixo e no teclado de Lord - uma obra-prima. Que abre espaço para outra, "Owed to 'G'", faixa instrumental usada por Bolin para mostrar que também tinha muita técnica.

"You Keep on Moving" fecha o disco mostrando que o som de negão não pegara só Hughes, mas toda a banda. É a melhor faixa do disco, e mostra tudo que a banda poderia ter virado se não tivesse acabado ali. Pois é, um ano depois o doido do Bollin, que já vivia chapado, resolveu passar dessa pr'outra. E a banda se desmanchou pela última vez nos anos 70. Voltaria só em 84, mas essa é outra história.

26 abril 2008

[1005] Lenine | O Dia em que Faremos Contato (1997)

Ok, talvez seja um padrão: 1 disco nacional, 2 gringos. Este é o quarto complemento ao livro "1001 discos para ouvir antes de morrer".

Lenine, assim como Chico, já gravou disco ao vivo (InCité (2004)) na França. Tem uma bela coleção de fãs fora de Pindorama. Mas, como tantos outros, passou bem longe do radar de "1001..." que, como já acusei aqui, achou espaço até para o Carlinhos Brown. O lado exótico de nosso país-continente sempre merecerá mais espaço, não tem jeito. Não importa: entortou ou ignorou, a gente acha prumo. Sem necessidade de ricursos que minguam toadas outras.

Lenine já foi precoce; em 83 lançou um tal "Baque Solto" que ninguém (ou)viu. Tinha 23, mas sei nada de sua história. Ele só voltou em 93, com "Olho de Peixe", em dupla com Marcos Suzano. Violão, voz (nordestina) e pandeiro. Incompleto mas promissor. Faltava alguma coisa. Faltava estrada. Faltava contato.

"O Dia em que Faremos Contato", de 1997, achou tudo o que faltava. 4 anos de contato foram suficientes para Lenine lançar um dos melhores discos brasileiros dos últimos 20 anos. Eclético, completo, faminto. Sei nada da história dele, mas tenho certeza que ele tinha material para um álbum triplo! Deveria ter lançado... não fosse amarrado numa gravadora do século passado. Aliás, ele ainda estava no século passado. Sua música não.

Trip hop, samba, rock, maracatu, pop, frevo... Lenine pisa em tudo, com passos leves e bem marcados, sem esconder uma personalidade única. Mix inteligente é assim, completo e original. "A Ponte" abre o disco com uma comovente narração d'um garotinho-músico. Tem guitarra distorcida e brincadeiras róseanas: "Nagô, Nagô, Na Golden Gate".

A segunda faixa, "Hoje eu Quero Sair Só", é um clássico de 11 anos. A guitarra decorativa apareceria em qualquer lugar, até num Pink Floyd ou Gil. Pintou aqui, brigando com (não contra) um pandeiro (de Suzano, claro). "Vem cá, me deixa fugir. Me beija a boca. Às vezes parece que a gente deu um nó. Hoje eu quero sair só..." A lua, que já apareceu em outros Lenines de forma igualmente poética, aqui o chama: "Eu tenho que ir pra rua" ("A Lua me Chama"). Quem não tem o disco perde o maravilhoso epílogo (só grafado no encarte):

"Homem solteiro é lobo solitário: a neve não cai no chão onde ele pisa. Ninguém pegue no meu pé, nem pise na minha pegada.
Homem sozinho à noite é caçador e caça, fica uma trilha de desejos e assombros por onde passamos, eu e minha sombra..."

Como escrito, no disco anterior são basicamente dois instrumentos. Agora Lenine tinha uma "orquestra" ao seu dispor. Seu violão corria o risco de virar rabisco. Não vira, graças ao baixo de Liminha (adorável antipático onipresente) e a produção de Chico Neves. Seguem-se "Candeeiro Encantado" (É Lamp!) e "Etnia Caduca", marcas fortes da origem nordestina, pernambucana e nada provinciana. Até que pinta "Distantes Demais", dueto com Dudu Falcão (na composição) e outro com Toninho Ferraguti (na execução, tocando acordeom). A voz de Lenine se transfigura, é quase feminina. Linda.

A faixa que dá nome ao disco é um achado. Os efeitos do Chico Neves desenham um disco voador perfeito (olha que sou de Varginha! Sei do que falo). Samba moderno, sem rock, com letra que todo samba deveria ter. Perdão: eu deveria transcrever um pedacinho. Impossível. A letra toda é fantástica.

Assim como é fantástica a 8ª faixa, "Aboio Avoado", que dura um minuto exato. Sem instrumentos, sem nada. Só a voz de Lenine. Já a mixei em vários momentos, mas Chico Neves tá certo: como abertura de "Dois Olhos Negros" ela é imbatível. Aliás, "Dois Olhos Negros" é imbatível. Quase... a versão no "Acústico MTV", com Igor "Sepultura" Cavalera na batera, consegue ser melhor. Duvida?

Se este disco tem um pecado é o fato de "Pernambuco Falando para o Mundo" não fechar o disco. Encerramento que seria perfeito. Pedir demais do Chico (Neves), né? A faixa é um mix-homenagem: Luis Bandeira ("Voltei Recife"), Capiba ("Frevo Ciranda"), Alceu Valença ("Sol e Chuva") e Chico Science ("Rios, Pontes e Overdrives") - 4 gerações e estilos de Pernambuco - maravilhosamente compilados num único som. Lenine é gênio (quando quer).

A capa, retrô, foi surrupiada do livro "O Homem Eterno" - da série Futurâmica da Ediouro. Belo achado - bela sacada. Tanto quanto o Zéfiro da capa de "Barulhinho Bom", de Marisa Monte (outra sentida omissão de "1001...". Ou seja, tenho muita matéria prima pra queimar!).

06 abril 2008

[1004] R.E.M. | Fables of the Reconstruction (1985)

O R.E.M. ganha a mídia de novo, com o lançamento de Accelerate. Há 4 anos eles não lançavam um disco de estúdio. Mas a agitação tem outro motivo: depois de Up (1998), Reveal (2001) e Around the Sun (2004), o REM resolveu pegar pesado de novo. Os tic-tacs eletrônicos cedem espaço para uma bateria de verdade; a guitarra ficou distorcida de novo, não como em Monster (1994), mas bem mais pesada do que aquela dos últimos discos. O REM sempre foi assim, uma banda em eterna metamorfose - com várias idas e vindas. Em seus quase 30 anos de carreira, algumas pérolas ficam perdidas. A maior delas é Fables of the Reconstruction, 3º disco da banda, lançado em 1985.

Claro, o REM não foi ignorado em "1001 discos..." Marcou presença com Murmur (1983), Document (1987), Green (1988) e Automatic for the People (1992). Quatro discos! Então, qual a razão para acrescentar o desconhecido "Fables.."? Simples: é o álbum mais injustiçado dos 14 lançados pelo REM.

Lá em 85 o REM ainda era rotulado como "college band", "guitar band" e outras bobeirinhas de críticos. Seus dois primeiros discos detonaram nas rádios universitárias. Eram muito parecidos. Mesma produção, mesmo ambiente, mesmo estilo de composição. Mesmo tipo de engano inocente cometido pelos contemporâneos do U2. Banda nova quer experimentar e aprender, esticar e empreender. A rotina mata. O REM trocou Athens (Georgia) por Londres. Trocaram também de produtores, escolhendo Joe Boyd, que nos 70's havia trabalhado com gente como Fairport Convention e Nick Drake. Era mudança pra valer.

Engana-se quem pensa que o som envelheceu. Claro, o efeito "modernizante" não foi tão chocante quanto aquele que Brian Eno conseguiu com o U2, mas o REM nunca mais seria o mesmo. Tudo que os transformou em superbanda conhecida mundialmente foi rabiscado e tentado em "Fables..."

"Feeling Gravitys Pull" abre o disco com a mesma força que "Drive" abre "Automatic..." "Maps and Legends", a 2ª faixa, é a cara de "Losing my Religion". "Driver 8" remonta o antigo REM, enquanto "Old Man Kensey" mostra aqueles backing-vocals que se tornariam uma das várias marcas registradas da banda. A sexta faixa, "Can't Get There from Here" é quase um funk, alegre e com muito swing. Estilo que se repetiria com mais sucesso em outros discos. A guitarra de Peter Buck nunca foi tão original. A voz de Michael Stipe nunca foi tão seca, o oposto de seu estilo tradicional.

Talvez para não assustar tanto, a música seguinte volta ao "velho" REM de "So. Central Rain" e afins. Trata-se de "Green Grow the Rushes", simples e eficiente.
E segue assim por três faixas, nítido porto seguro da banda e do produtor. Até que chega "Good Advices" que, ao lado de "Maps..", "Driver 8" e "Can't Get..." é um dos melhores momentos do álbum. Stipe lembra que "home is a long way away". Clara saudade. Se terminasse por aqui já estaria acima da média, mas eles trataram de fazer um dos melhores encerramentos de discos de todos os tempos. Colada em "Good Advices" começa "Wendell Gee", uma balada tão bonita que dói. Levada num mandolin que retornaria no disco "Green" de 88, em outra balada obrigatória do REM, "You are the Everything".

A capa do disco, como quase todas dessa fase da banda, é poluída e meio tosca. Vale mais a enigmática montagem que aparece na parte interna do encarte. Mas, imbatível mesmo é a brincadeira que o título do disco permite: "Fables of the Reconstruction" é grafado de tal forma que também permite outra leitura: "Reconstruction of the Fables".

O REM já estava pronto - reconstruído. O mundo ainda demoraria uns 3 discos pra saber; pra entender. "Fables..." é um disco perfeito demais para uma banda iniciante. Talvez seja por isso mesmo que fique jogado num canto toda vez que alguém tenta listar os melhores momentos do REM.

20 março 2008

[1002] Paralamas do Sucesso | Severino (1994)

Pois é, o Paralamas é uma das ausências mais sentidas em "1001 Discos...". Se acharam espaço até para Carlinhos Brown, claro que cabia pelo menos 1 disco do trio fundado em Brasília no início dos anos 80. De todas as bandas do ápice do rock tupiniquim, o Paralamas foi a única a romper fronteiras de uma maneira mais notável. Tocou em Montreaux em 1987, faz sucesso na Argentina e angariou fãs na Europa. Nada parecido com os feitos do Sepultura, mas o Sepultura não é daquela turma (Legião, Titãs, Barão...)

Mas, qual disco do Paralamas deveria aparecer na seleção de discos que deveríamos ouvir antes de morrer? "Bora Bora" (1988) é divertido e tem "Quase Um Segundo". "Selvagem" (1986) marcou o início do fim da fase 'chicletinho-pop'. "Big Bang" (89) é pesado e com um instrumental riquíssimo. Bom, optei por "Severino", o maior fracasso de vendas da história da banda. Vendeu mais na Argentina do que por aqui.

Lançado depois do adocicado "Os Grãos" (91), "Severino" propõe um caminho totalmente diferente na carreira de Herbert (gtr e voz), Bi (baixo) e Barone (batera). Mais experimental, mais pesado (no som e nas letras), o disco causou estranheza em todos os fãs tradicionais. Só com o tempo e o lançamento do disco ao vivo "Vamo Batê Lata" (95) é que o pessoal começou a se acostumar com algumas músicas, principalmente "Rio Severino", "Vamo Batê Lata" e "Dos Margaritas". Não imaginam o que perdem por não ouvir as versões originais.

O disco abre com "Não me Estrague o Dia", poema curto mais falado do que cantado. O diálogo do milionário com o proletário. Apela, mas funciona. "Navegar Impreciso", que conta com participações de Tom Zé e Linton Kwesi Johnson, é uma pérola declamada. Anti-homenagem aos portugueses que na época, como os espanhóis agora, expulsavam brasileiros de suas terras. "Varal" segue na linha experimental, disfarçando a porrada que vem na seqüência: "Réquiem do Pequeno":

te falta o gesto largo, a ébria poesia
TE SOBRA A PEQUENEZA, AS PEQUENAS CERTEZAS
"El Vampiro Bajo del Sol" é puro Queen. Não por acaso, conta com a guitarra solo do próprio Brian May. Cortesia de Phil Manzanera, ex-guitarrista do Roxy Music, que produziu o disco. Sim, o disco foi produzido na Inglaterra.

Jogando vacas do décimo andar, Herbert se embriaga com "Dos Margaritas", para depois se afogar no melhor (único?) épico que já compôs: "Rio Severino". Esta música já havia aparecido em seu primeiro disco solo, "Ê Batumaré" (92), mas é a versão de "Severino" a definitiva. Seca como o chão do sertão:
és tu brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem
ACESSO FÁCIL A TODOS OS TEUS BENS
A versão original do disco se encerra com uma das mais bonitas baladas já compostas por Herbert, "O Amor Dorme", um som-homenagem ao filme "The Hunger" (Fome de Viver), de Tony Scott. A versão em CD tem duas faixas bônus, "Go Back" (dos Titãs) e "Casi un Segundo", versão em espanhol sobre um teclado de Egberto Gismonti. A capa e todo o trabalho gráfico do disco, espantoso-bonito-e triste, é de Gringo Cardia, usando como matéria-prima o trabalho de Arthur Bispo do Rosário.

"Severino" não é nada menos que obrigatório.

.:.

Pra quem pegou o bonde andando, entenda esta série.

19 março 2008

Antes de Morrer

Tem uns 40 dias que ameaço iniciar esta série. Desde quando terminei a louca tarefa de ler as 950 páginas de "1001 Discos para Ouvir antes de Morrer". Minha motivação? Claro, reparar terríveis omissões daquela obra. Chato que se preza lê cada uma das 1001 críticas e prepara seu próprio conjunto de críticas, hehe...

Primeira crítica: capa bem nada a ver, né? Tudo bem, a obra trata, principalmente, do universo "rock (pop)". Mas precisava ter um punk na capa? Garanto que espantou muita gente. Repare abaixo que a edição original (em inglês) mereceu uma capa bem mais agradável. Mas, vamos lá...

A compilação é ambiciosa. E envolveu 90 críticos. Com tantas cabeças envolvidas, era de se esperar uma obra meio desigual. Não é o caso. Primeiro porque o trabalho do editor, Robert Dimery, foi muito bem feito. Só em um caso ou outro você repara a persona de determinado crítico - quando ele se exalta. O problema maior é uma certa "uniformidade" de gostos. Queria muito entender porque todo crítico musical dos últimos 30 anos parece saído da mesma chocadeira. TODOS têm uma visão muito parcial do mundo pós 1977 - ou seja, adoram punks, new-waves, papo-cabeça-weirdo, ondas passageiras (que eles desejavam eternas, mas não bancam a longevidade porque se apaixonam por outras modas)... Sim, é exatamente o mesmo perfil de quem escreve sobre música para as revistas da Abril, por exemplo.

São irritantemente freqüentes aquelas críticas que dizem que tal disco é "incômodo", "barulhento", "incompreensível", "desconfortável"... Entendeu o "weirdo" acima? Então... hehe

Mas neste "prólogo" eu só quero apresentar o livro. Nos capítulos seguintes apresentarei os nobres ausentes, não na ordem cronológica do livro, mas tentando respeitar o mesmo padrão utilizado: breve crítica, ficha técnica, informações sobre vendagem etc.

Dos 1001 discos, eu não conhecia uns 30%. De artistas que eu nunca tinha ouvido falar, só uns 15% - boa parte de gente da Ásia ou África. Ou seja, bem distante do meu mundo musical mesmo.

Devo ao livro duas descobertas que, inexplicavelmente, ficaram totalmente fora do meu radar quando mergulhei na Junkyage* (pesquisa que fiz sobre os sons dos anos 30-70). Estou falando de John Martyn e Nick Drake. Dois ingleses que desenvolveram um trabalho muito, muito original, no início dos anos 70. Ambos misturam rock, folk, blues e jazz numa salada muito agradável. Compositores de mão (cabeça) cheia e cantores com uma peculiar voz grave. Nada de Joe Cocker ou Rod Stewart - um grave não agressivo, nada arranhado, se é que me entendem. Para compreender melhor, tentem "Pink Moon" (álbum homônimo, de 1972) de Drake e "Don't Want to Know" ("Solid Air", 1973) de Martyn. Esta última caberia fácil num disco do... Jack Johnson!?! Pois é... escrevi isso. Perdão John.

O livro é separado por décadas, começando nos anos 50. O primeiro disco é "In The Wee Small Hours", de Frank Sinatra. Atual, termina com "The Good, The Bad & the Queen", lançado em 2007 pela banda de Damon Albarn (o cara do Blur e Gorillaz) que tem o mesmo nome. Do jazz ao blacktrashmetal, passando por samba, rumba, tango, jazz africano e pop francês, o livro é bem eclético. Mas algumas inserções parecem mais uma forçada de barra, a necessidade de mostrar que o mundo da música não está restrito ao hemisfério norte, no espaço entre Londres e Los Angeles.

O que desvaloriza um pouco o livro (que é barato, cerca de R$ 60 por quase mil páginas impressas em papel de excelente qualidade), como eu disse lá em cima, é a quedinha dos críticos por modinhas (que não são de viola). Nada, nada justifica que David Bowie e Elvis Costello tenham, cada um, mais de 5 discos listados. Um absurdo. Daí, claro, parte a inevitável queda por tudo que tenha saído da NY pós-Velvet e da Londres pós-Bollocks. Seguindo no ritmo moda-modinha, a partir da metade dos anos 80 aparece um número imenso de discos de rap, hip-hop e afins. Não que alguns destes trabalhos não mereçam destaque. Um livro com essa proposta deve ser democrático. Mas o espaço ocupado por algumas tendências é desproporcional.

Só conseguirei provar minha impressão mostrando tudo o que ficou de fora. Começo o trampo no próximo capítulo. Inté!

04 novembro 2007

A Coisa Verdadeira

Não foi como eu havia planejado, mas terminei de ler "Eric Clapton - A Autobiografia". 400 páginas em praticamente dois dias. Acho que é um recorde pessoal. Mérito exclusivo do autor. Não dá para parar de ler.

As críticas do livro já haviam me alertado: Clapton é dolorosamente verdadeiro em seu texto. Mas eu não esperava encontrar o que encontrei. Na verdade, meu único interesse era só uma pesquisa: descobrir por outros olhos aquele momento que adoro e que chamo de Junkyage*. Acabei aprendendo bem mais do que esperava. Muito mais.

A autobiografia do Clapton tem 'n' serventias. Tem sim uma história maravilhosa que cobre praticamente toda a Junkyage*. Clapton mostra o que escutava na adolescência e como aprendeu a tocar guitarra. Conta como detestava os Beatles e toda aquela mania inglesa de só ter olhos e ouvidos para um único estilo - ou um único artista. Saído de Ripley, pobre e descobrindo seu rumo a cada dia, teve uma sorte "dos infernos" de achar e conviver com todo mundo que tinha um mínimo de relevância na época.

Por exemplo, ele estava no Speakeasy, um pub, quando Paul, George, Ringo e John chegaram com o acetato de um disco que tinham acabado de gravar e mixar. O bar tinha um DJ e todos estavam cheios de ácido (STP - cujo efeito dura uns 3 dias). Paul, viajando, deu o disco para o DJ. Foi a primeira execução pública de "Sgt Peppers". Apesar do estado de chapação, ou por causa dele, todos viram que nascia ali um novo Beatles.

Clapton parece um tipo de Forrest Gump. Testemunhou ou participou ativamente de praticamente todos os eventos relevantes dos últimos 50 anos. Fazia um show em Boston, em 4 de abril de 67 - dia do assassinato de Martin Luther King. No teatro em frente tinha um show de James Brown. Os EUA fervilhavam e aquela noite foi de uma quebradeira danada em Boston. Clapton e seus colegas do Cream, Jack Bruce e Ginger Baker, tiveram que fugir pelos fundos do teatro.

Não vou fazer um resumão do livro. Queria apenas ilustrar o fator "run Forrest" e a importância do livro na documentação de uma época - a época mais criativa do século XX. E não estou falando só de música. Longe disso. Clapton estudou design. Era ligado em literatura, teatro (adorava um peça de Harold Pinter, "Caretaker", de 59), cinema (italiano e francês!) e moda! Foi ele quem desenhou o modelito 'mod' que os Yardbirds utilizavam (terninho moderno com lapelas curtas e abotoado até em cima).

Mas, como eu disse, o livro tem outras 'serventias'. Clapton é realmente de uma sinceridade raríssima entre famosos. Coitados, mas não deixei de pensar no quanto Roberto Carlos, Xuxa e afins se apequenam ao tentar esconder seu passado. EC virou um gigante ao escrever sua autobiografia. Não como artista, que eu já admirava, mas como pessoa.

Ele não poupa detalhes na descrição de seus vícios e das incríveis lutas que travou para livrar-se deles. Mas o faz sem melodramas ou rodeios. É cru e direto. A leitura vira um turbilhão de emoções. Numa página você chora. Na seguinte, ri por alguns minutos. Ri de verdade, não de nervoso. Por exemplo, num trecho ele acaba de narrar uma ralação danada com drogas. Aí, por um motivo qualquer, se encontra com Keith Moon, baterista do Who. E conclui que ele era "fichinha" perto da loucura de consumo que era o Keith.

A vida de Clapton é marcada por tantas desgraças, sendo a mais famosa a perda do filha Conor, que é praticamente tudo o que um sujeito como eu sabe dele. Engana-se quem acha que o livro é um tipo de expiação. É uma reflexão de fato, feita por um senhor de 62 anos de idade que se descobriu depois de velho. É uma história de vida rica demais. Então vai uma dica estranha do BlueNoir: você curte livros de auto-ajuda? Vai adorar também o livro de EC. Não estou brincando nem tirando sarro.

Aos que querem só a música outra dica: municie-se. Se você não conhece, é uma excelente oportunidade para descobrir Stephen Stills (Buffallo Springfield e CSN&Y), Duane Allman (Allman Brothers), J.J. Cale, George Harrison e, claro, todos os grandes do Blues, de Robert Johnson até Robert Cray. Clapton presta um belo tributo a todos, relembrando-os com sinceridade e a merecida reverência. A história dele com George Harrison é a história de uma amizade impressionante. Quem conhece só a famosa "traição" (Layla!), não sabe 1% do ocorrido.



O título deste post tem duplo sentido. Chato é ter que explicar um título. Sou chato, estou acostumado. O primeiro, óbvio, é a sinceridade do livro. O outro aparece em vários momentos do texto. A "coisa verdadeira" marca a boa música, a música honesta. Clapton não gostava dos primeiros Beatles e de todas as suas cópias porque elas não eram sinceras. Clapton não gostava do Led Zeppelin porque eles não eram justos com os blueseiros que lhes forneceram matéria prima para seus primeiros sucessos. Clapton aprendeu com seus pais (na verdade avós) a valorizar só a "coisa verdadeira". Por isso vai direto ao ponto:

"A cena musical como a vejo hoje é pouco diferente de quando eu estava crescendo. Os percentuais são aproximadamente os mesmos: 95% de lixo e 5% puro. Contudo, os sistemas de marketing e distribuição estão no meio de uma enorme guinada, e por volta do final desta década creio ser improvável que qualquer uma das atuais gravadoras ainda esteja no negócio. Com todo respeito a todos os envolvidos, isso não seria uma grande perda. A música sempre vai achar um caminho até nós, com ou sem negócios, política, religião ou qualquer outra baboseira ligada a ela. A música sobrevive a tudo e, como Deus, está sempre presente. Não precisa de ajuda, e não é obstruída. Ela sempre me encontrou e, com a benção e permissão de Deus, sempre haverá de me encontrar."


A autobiografia de Clapton é um documento valiosíssimo. Ao contrário do que imaginei, não é um livro para poucos. Não vejo outra forma de encerrar este post: Clapton, muito obrigado.

10 outubro 2007

O Dia em que uma Crítica me Pegou

Relembrei hoje: aconteceu no dia 24 de abril de 1989. Devia ser uma típica segundona, aquele mashup de ressaca com preguiça. Meu pai assinava O Globo e eu surrupiava o Segundo Caderno. Ele era especial nas segundonas, porque tinha uma coluna chamada "Discolândia".

(Não me pergunte como peguei a imagem acima. Você não acreditaria.)

O primeiro parágrafo do artigo da Ana Maria Bahiana funcionou como litros de café. Não acreditei no que li. E reli. E li de novo. Leia:

São duas e meia da madrugada. Choveu. Ao longe você ouve, às vezes, o chiado rouco de um carro sobre o asfalto molhado. A TV, sem som, passa um filme que era novidade quando seu avô estava no ginásio. O resto do mundo é uma possibilidade distante, meio anestesiada; a metade diurna da sua vida, a pessoa normal que você é, arquivada em alguma outra gaveta, algum outro tempo. Você não está triste, você não está feliz, você não está nenhuma dessas coisas corriqueiras. Existem apenas pianos, lembranças, reflexões, tão reais que você pode, se realmente quiser, tocá-los com as pontas dos dedos, em algum lugar no betume negro da madrugada.

Esse é o disco dos Cowboy Junkies.


Foi a primeira e única vez que comprei um disco por causa da crítica. Eu só ouvia "rock pauleira" na época. Mas não quis saber qual era o estilo dos Junkies. Simplesmente queria experimentar aquele sentimento daquele parágrafo da Ana Maria. Ela não errou nem 1 milímetro. Nem uma gotinha. Virei fã d'uma crítica, e adorei até o seu parcial Almanaque dos Anos 70.

Há tempos eu tentava recuperar a crítica acima. Consegui hoje, graças aO Globo. No restante do artigo, Ana Maria detalha o disco e seu processo de construção. É o "Trinity Sessions", lançado lá fora em 88. Sua produção custou US$ 200 (duzentos dólares!). Foi gravado ao vivo numa igrejinha do Canadá (Trinity), num único dia (tinha que ser 27/nov/87). Três versões de cada música, tudo acústico e capturado por um único microfone "overall".

Ana não conta, mas a primeira reação dos 3 irmãos que formam a banda, tão logo encerrada a gravação, foi correr para o colo da mãe. Levaram um "copião" para escutar com ela. Após os 52'59" a mãe Junkie exclamou: "Parece meu neto".

Anos depois, Oliver Stone surrupiou a versão que eles fizeram para "Sweet Jane", do Velvet Underground, e a colocou para contrabalancear com as poças de sangue de "Assassinos por Natureza". Foi o único momento em que os Junkies ganharam um 'arzinho' pop e um pouco de divulgação. Nos outros vinte e poucos anos da banda, a segurança d'um culto fiel. Tenho todos os discos deles, uns 16 oficiais e quase uma dezena de não-católicos. Tudo culpa da crítica da Ana Maria.

Mas, todos os fãs concordam, a mágica Sessão de Trinity nunca mais se repetiu. Claro, obras-primas não se replicam nem reproduzem. São fatalmente únicas. Mas os Junkies são teimosos. E vão lançar em poucos dias um novo "Trinity Sessions". Estão comemorando os 20 anos do "filhinho". E resolveram fazer tudo de novo. Desta vez, com vídeo também. Falaram que nem ensaiaram nem nada. Mas também não tinham a intenção de repetir, nota por nota, a viagem de 2 décadas atrás. O peso da idade deve se refletir no novo disco. Como? Também estou curioso.

E a Ana Maria, que tento contactar em vão há uns 3 anos, será que também ficaria curiosa? Será que aquela madrugada se repetiria?

São exatamente 18h12, e meu porão ficou escuro d'uma vez. Está tocando "Dreaming my Dreams with You". E a Ana não errou um milímetro sequer...

21 setembro 2007

The Saddest Song

by Mark Sandman

On my first day back my first day back in town
My first day my first day back in town
The clouds up above they were humming our song
Humming humming our song

My biggest fear is if I let you go
You'll come and get me in my sleep
My biggest fear is if I let you go
You'll come and get me in my sleep
Come and get me

I set my course sailed away from shore
Steady steady as she goes
I crash in the night two worlds collide
But when two worlds collide no one
survives no one survives and
The reddest of reds the bluest of blues
The saddest of songs I'll sing for you and

My biggest fear is if I let you go
You'll come and get me in my sleep
My biggest fear is if I let you go
You'll come and get me in my sleep
Come and get me come and get me in my sleep



Ah.. os sonhos/pesadelos que nos perseguem... só porque um dia eles escaparam.

Já tem 8 anos que o Sandman morreu. Ataque cardíaco fulminante. No palco. Deixou 5 discos oficiais pelo Morphine. Outros poucos pela igualmente ótima "Treat Her Right". No Morphine cantava e tocava baixo. Um baixo de 2 cordas! Uma das melhores bandas de rock da última década não tinha guitarra. Quanta contradição.

Sandman era um beatnik tardio.. nasceu com uns 20 ou 30 anos de atraso. Merecia ter vivido a era de ouro. Deu o azar de viver os 80's e 90's. Mas não se sentiu deslocado. Quem tem talento cria seu espaço. "O criativo cria a si mesmo".

Sandman: "Quando eu era uma criança pequena em Newton (Massachusetts), as pessoas diziam que eu seria poeta quando eu crescesse. Caramba... que tipo de criança ouve esse tipo de coisa?"

18 setembro 2007

O Dia dos Mortos-Vivos

Tá agendado: será no próximo 26 de novembro, uma segundona. Porque toda segunda é dia internacional dos mortos-vivos (e da preguiça e da ressaca). Na última segunda do penúltimo mês de 2007 acontecerá um pequeno show-tributo para Ahmet Ertegun - desculpa para arrecadar uns trocados para sua fundação.

Bill Wyman (ex-Stones), Pete (Who) e Foreigner (vish10x! morto-vivo é isso aí!) estarão no pedaço. Cast que chamaria uns 5 mil curiosos, se muito. Acontece que colocaram na cabeça do evento uma bandinha que morreu em 1980. Um grupinho que, depois do falecimento, só se reuniu 2 vezes, em 85 e 88. Uma grupo que lançou só 11 discos oficiais (e 111 piratas!). A bandinha, que todo poppunknerdmoderno adora detestar, atende pelo nada singelo pseudônimo de Balão de Chumbo, vulgo Led Zep.



Semana passada anunciaram o evento e, de repente, a página do evento recebeu 120 milhões de hits! 25 milhões de zumbis se inscreveram, com uma vontade danada de pagar cerca de R$300 pelo show. O mundo pop, que tenta ter explicação para tudo, não explica o fenômeno Led Zep. Quem acha que são 25 milhões de quarentões, cinquentões e sexygenários pode até estar certo. Mas eu acho que mais da metade dos 25 milhões de zumbis não havia nascido quando o Bonzo partiu dessa para uma bem melhor. Essa turminha já pôde ver o maravilhoso DVD lançado em 2003. Os mais fanáticos já viram e ouviram centenas de gravações não oficiais. Mas zumbi que presta sabe que rock é rock mesmo ao vivo, no palco. Eis que, do nada, o Zeppelin de Chumbo parte para outro vôo desgovernado.

A gente sabe que o vôo não chegará nem perto daquele em Earl's Court, 75. Será igualmente distante dos shows da turnê americana de 72/73. "Foda-se", gritariam zumbis numa só voz... hehe..

24 agosto 2007

Ponto Morto

Tem mais de ano. É sempre a mesma solução. Ligo a máquina, acompanhado d'uma xícara de café e de um Marlboro. Só tem dois "to-dos" na agenda: quero a tarde livre (todas as tardes das sextas eram livres para meu velho). Bate-volta pra Sampa, um futebol bem corrido na noite de ontem. Te deixa meio "comfortably numb", o que aqui em Minas a gente chama de "desnarpado". Na frente da máquina (o computador), minha primeira coisa é escolher a "trilha sonora". Por isso eu falei de "solução" na 2ª frase deste parágrafo meio "desnarpado".

A mesma solução? Qual o problema? Escolher uma trilha para uma sexta "desnarpada". Dezenas de milhares de sons, mais de mil bandas e estilos diferentes. Mas, como eu disse, tem mais de ano que a solução é a mesmíssima: Mojave 3.

Mais precisamente, o disco "Excuses for Travellers", de 2000. Foi o disco que me apresentou a banda, que é inglesa e tem outros 4 trabalhos. Nenhum tem o poder de "forro para um dia desnarpado" do "Excuses..." Ok, a banda é inglesa e dos anos 90. Mas não tem nada a ver com os modelitos que imperam na terra da rainha. Passa longe do papo-cabeça Radiohead (ufa!), do pop reciclado do Coldplay, da estridência de Oasis e Stereophonics. Mais importante, também fica muito distante das fôrmas oitentistas tipo Smiths, Cure, New Order e U2. Ah, também não tem nada a ver com outra banda que curto, o Doves. Ou seja, a rainha conseguiu parir uns súditos meio diferentes.

Mas o som dos caras não tem nada de muito original não. Para um desafisado, parece som da minha querida (e esquecida) Junkyage* - 60's - 70's (pré-lixo a.k.a. pré-punk). Traduzindo: baseia-se em violão, guitarras cruas, slide guitars, pianinho, um gaitinha aqui e uns instrumentos estranhos ali (outros sopros). Vocal preguiçoso, mas bem longe de Luna ou Lou. É preguiçoso mas tem "cola". E as harmonias são bonitas demais. Belas e simples.

O melhor media player do mundo, o Amarok (pronuncia-se "AmA Rok" - haha!, tem uma característica que se chama "mood". Tipo assim: pega o som que você tá escutando e tenta adivinhar seu "estado de espírito". Aí encaixam bobeirinhas tipo: tá triste, tá alegre, tá excitado, tá desesperado! Seria um recurso legal se fosse sacana. Por exemplo: o cara tá escutando "Triste Bahia", do Caetano. Mood: ou o cara tá morto ou tá pra lá de bêbado! hehe..

Então, na sequência sacana, tinha que ter o mood "desnarpado". Para o entendimento dos iletrados, pode chamar de "ponto morto" (ou "idle"). A sensação... como descrever a sensação. Talvez assim:

Você tá num carrão 60 (Mustang ou algo do tipo), e pega um "longo trecho em declive". De forma um tanto irresponsável, você engata o "ponto morto"... arreganha as janelas, sente o cheiro dos eucaliptos e o frio agradável do morro. Pena que não dá pra fechar os olhos... Taí o mood "desnarpado". E se, lá embaixo, tiver uma bela praia ou vale, algo cheio d'água, é sinal que o disco tá acabando. Começou "Bringin' Me Home", a única com o vocal da Rachel Goswell. A viagem sem desculpas (por que é feita sem culpa), termina com "Got my Sunshine".

Sacou o solão que tá lá fora hoje? Que bela e desnarpada sexta!

07 agosto 2007

Cinema Cabeça

Com poucas horas de diferença deixaram a vida terrena dois "gênios" do cinema: Bergman e Antonioni. Até o último domingo tentei ler tudo que publicaram sobre os dois. Do "Mais" da Folha até o Agamenon do Globo. Dois extremos e um denominador comum: o papo-cabeça, também conhecido como "espanta mortais normais".

Há muito tempo, no tempo da locadora "7ª Arte" lá pelos lados da rodoviária, eu vi algumas coisas do Bergman. Não me pegou. Mas também não espantou. Só questão de gosto mesmo. Por exemplo, aprendi por vias tortas que dá pra discutir temas semelhantes vendo uma certa safra do Woody Allen. Woody seria um Bergman para preguiçosos... hehe. Perdão: é tão falso quanto conhecer um livro pelo filme. Você deprecia o original. No próximo inverno, se as locadoras de Varginha deixarem, eu prometo que assisto uns 3 Bergman. Fila: Sétimo Selo, Morangos Silvestres e Fanny & Alexander. Só o último, de 82, eu já vi. Mas não tenho condições de apreciar.

Já de uma parte da obra do Antonioni eu posso falar. A parte que eu chamo de Trilogia do Ácido. Trilogias estão na moda, não? Então, Antonioni fez, entre 66 e 75, uma Trilogia. Sem querer. Tanto que ela não tem rótulo. Alguns podem falar em trilogia do "still haven't found what i'm looking for" (ou trilogia da busca infrutífera). Outros vão falar da trilogia "terra estranha". Estranho numa terra estranha é nome d'outro clássico. Mas também combina com essa safra do Michelangelo.

Saca só o início: Adaptação de um conto argentino (Cortazar), situando-o na Swinging London - a Londres festiva de 1966. O diretor, reparem, é italiano da gema - de Ferrara. Beatles já era Beatles. Stones era droga pura, ou seja, Stones. Mas, para a trilha sonora, Michelangelo convocou um pianista estadunidense: Herbie Hancock, na flor da idade e da criatividade. Herbie sabia o que tava acontecendo em Londres? Lhufas... Para decorar o cenário Antonioni convocou uma bandinha cult, os Yardbirds. Tem Jeff Beck (despedaçando uma guitarra) e Jimmy Page com cara de carrocho que caiu da mudança. "Blow Up" é pop puro! É cultura global antes da invenção da globalização. E é uma busca.

Colaram um papo cabeça na tal da busca. Muitos se chateiam porque "o filme não tem fim". Parece que todo filme-cabeça não tem fim. E fim, para todos letrados em folhetins globais, é item obrigatório! Como aceitar então um filme sem pé nem cabeça? Preconceito... preguiça. Você encontra tudo que busca? E se a apreciação da busca for tudo o que interessa? Mas não vou chateá-los com questões "cabeça".

Liberto da Itália de Visconti e Fellini (hahaha), Antonioni pulou de Londres direto para o vale da morte nos Estados Unidos. "Zabriskie Point" fala (sem dizer) da contra-cultura no novo mundo. Os EUA explodiam com seus hippies, panteras negras, vietnans e tantans. Antonioni colocou Morrison, Janis ou Hendrix na trilha? Não. Na mesma contramão que levou Herbie para o Reino Unido, trouxe Pink Floyd para terras apaches. Outra busca, agora não tão solitária. Outra busca sem fim.

A Bota que atrai é a mesma que chuta. Michelangelo então cai na África e na Espanha. Leva na mochila uma mega-estrela californiana, Jack Nicholson. Joga-o não só numa busca, mas também em um esconderijo. Outra pessoa. Outra vida. Surrupiada d'um defunto. Aqui a trilha é o silêncio. E um tiro. Aqui Michelangelo fecha uma trilogia não programada - que só existe na cabeça d'uns loucos (como este que vos escreve). Aqui (no Brasil), a obra deixou de ser "The Passenger" para virar "Profissão: Repórter". Não é por acaso que o Kubrick, outro saudoso, cuidava inclusive da tradução dos títulos de suas obras. Nevermind... O Passageiro passou... em 75.

Qual foi a pergunta mais comum dos passageiros (repórteres) tupiniquins? O "cinema cabeça" morreu com a morte de Bergman e Antonioni? Hehe... Rio chorando. Quem rotula morre de medo que os rótulos morram. A segunda pergunta? Quem os substitui hoje? Hehe... busca de sobrevida para rótulos. Quem faz esse tipo de pergunta deveria se perguntar: sou substituível? Para quem?

A gente passa. Algumas idéias e obras ficam. As de Antonioni e Bergman estão aí... e ficarão por tempo indeterminado. Curta-as. Não esquenta com o papo cabeça.

02 abril 2007

Nostalgia

Manhã de domingo, dia da mentira. Ressaquinha leve e uma vontade de escutar música brasileira. Comecei pelo meu default - Lenine - e pulei no samba do Seu Jorge. Duas músicas só. Não bastava ser brasileira. Tinha que ser diferente. Tem dia que tenho que escutar música 'diferente'. Fucei na coleção e saquei um disco que só ouvi uma vez: "Transa". Caetano Veloso, 1972. Fase barra pesada.

Conclusão antecipada: não gosto do Caetano. Os 40 anos de carreira dele renderam, para meu gosto, umas 20 músicas razoáveis e umas 3 excepcionais. Só. Quem falar que agüenta escutar "Triste Bahia" inteirinha, em volume razoável, ou é louco ou é sado-masoquista. São nove minutos e meio da mais pura tortura. Aliás, escutei cada segundo. É que bateu um espírito baiano e não consegui sair da rede (aquela de balançar) para apertar o 'next'. "Triste Bahia". Caetano filosofa em cima d'uma batucada de fazer Carlinhos Brown parecer gênio.

"Filosofia". "Mora na Filosofia", de Mansueto Menezes, salva o lado 'B' do disco. Caetano é bom intérprete. Perde feio pra mana Bethânia, mas tem personalidade. A letra do Mansueto ajuda muito. "Te coloquei na balança - você não pesou / Te coloquei na peneira - você não passou". Dá pra entender porque Caetano resolveu gravá-la. Filosofando. Aí caiu na "Nostalgia".

"Nostalgia". Num desses dicionários da Internet tem a origem da palavra. Do grego: nostros (retorno) + algós (dor). O retorno da dor. Acontece que a faixa que fecha a "Transa", com um minuto e vinte segundos, tem subtítulo: "That's what Rock and Roll is all about". A levada é blues. Violão chique. Mensagem truncada ou errada ou mal guiada. Era 1972. O sonho tinha acabado mas o rock'n'roll estava vivinho. E olhando para a frente. Antecipou tanta coisa. Tanta coisa que o próprio Caetano continua reutilizando, inclusive em sua nova fase... rock'n'roll!

Caetano é o rei da varada n'água. O rei do "ou não". Deve vir daí sua empatia. Um rei que se mostra plebeu perdidinho toda vez que abre a boca ou escreve algo. "Eta eta..." Caetano Malagueta.

O assunto não ia roubar espaço e 10 minutos do meu tempo. É que hoje recebi uma mensagem bem 'auto-ajuda': "A nostalgia pode ser uma força poderosa. Hoje ela pode ter um efeito narcótico em você!"... hehe..

Ok Caetano, você venceu. Hoje vou escutar todos os discos do Led Zeppelin!

14 fevereiro 2007

Olha o Camburão aí Gente!

E por falar em ressurreição! Uma das bandas mais criativas e bem sucedidas dos anos 80 vai se reunir para comemorar os 30 anos de sua primeira gravação. O Police está de volta!



Por enquanto se trata de uma grande turnê mundial. Claro, Pindorama tá na lista. Provavelmente no último trimestre. Um CD e um DVD com o registro do passeio deve ser inevitável. Mas, por enquanto, nada de novas gravações. É mais provável que seja só isso mesmo: uma grande comemoração e pronto. Sting, apesar do desastre de seu último disco (Sacred Love), tem uma carreira solo consolidada. Andy Summers tá com uns 60 anos. Não tem mais pique para banda. E Stewart Copeland é um esquisitão-legal que sonha desde 86 com a volta do Police. Terá seus 10 meses de curtição.

Como eu já disse por aqui, não gosto de 'revivals'. Mas, de novo, taí mais um que curti. Sim, porque o cenário musical anda paupérrimo. Sim, pq finalmente poderemos ver o trio no Brasil. E não precisa ter música nova. Aliás, tomara que eles evitem isso. Não tenho dúvidas de que cada som será retrabalhado. Sting regravou dezenas de sucessos do Police, todos com uma roupagem bem jazz. Copeland é vidrado em sons do 'terceiro mundo' desde a primeira fase da banda. E Andy Summers é eclético por natureza. O último disco dele é "Splendid Brazil", gravado em parceria com o excelente guitarrista Victor Biglione. Ele gravou "Chovendo na Roseira" (Jobim), "Retrato em Preto e Branco" (Jobim e Chico), "As Rosas não Falam" (Cartola) e "O Ôvo" (Hermeto), dentre outros clássicos tupiniquins. Tudo instrumental. Todas fenomenais. Tudo passou batido na terra do calypso-bruno-amarronado.




O Police nasceu praticamente no 'boom' do pior momento do rock: na era "punk+disco". Passou batido, apesar da guitarra seca de "Next to You". Diferença fundamental: inteligência + reggae. Acabou criando um estilo que foi cansativamente copiado mundo afora. Um de seus filhotes mais nobres é o Paralamas do Sucesso (mesmo formato - mesma proposta inicial).

O trio não tem lógica e talvez por isso tenha sido tão criativo. Sting era professor com uma voz fraquinha pero marcante. Um Chet Baker sem heroína (só um yagezinho de quando em vez). Copeland, filho de diplomata estadunidense, girou mundo. Playboyzinho culto e antenado. Para muitos, o melhor baterista dos últimos 30 anos. Para mim ele perde do Bonzo (Led) e empata com o João Barone. Summers era o mais velho dos três. Tava no mundo do rock desde o início da era Beatles! Participou de coisas pra lá de estranhas como o Dantalion's Chariot, banda pop-psych que lançou um disco em 67. Escute a introdução de "Bring on the Night" para entender porque muitos acreditam que Summers reinventou a guitarra.

A riqueza musical da banda merecia letras igualmente valiosas. É aqui que Sting se destaca. E não estou falando das rimas bem sacadas de "Every Breath you Take" (que ninguém tira da minha cabeça que é um quase plágio do reggae do LedZep, "D'yer M'aker" - sem demérito. Afinal, cria-se assim também). Mas tô falando de outras pérolas, tão ou mais importantes que o maior hit deles. "Roxanne" é um apelo passional para um puta (viu Veja: PUTA!). "Don't Stand so Close to Me" é um apelo frágil para uma aluna safadinha. "I Can't Stand Losing You" é o apelo dos apelos:

I guess this is our last goodbye
And you dont care, so I wont cry
But you'll be sorry when Im dead
And all this guilt will be on your head
I guess youd call it suicide
But Im too full to swallow my pride

I cant, I cant, I cant stand losing...


Como um dramalhão assim não soa patético? Tendo bom humor. E ritmo, muito ritmo.

Desse camburão ninguém tem medo. Que venha a Polícia!

11 fevereiro 2007

Van Halen: Pai e Filho

Essa é só para os rockeiros de quase-meia-idade e uma certa saudade. Uma das melhores bandas estadunidenses dos anos 80 está de volta: Van Halen. Com seu vocalista original, o David Lee Roth. Não curto revivals, particularmente aqueles movidos exclusivamente por muita $$. Mas neste caso dá pra dar um desconto. É tanta emo-merda, tanta pasmaceira, tanta viadice, que tem espaço sim para um velho e descompromissado Rock'n'Roll. E o Van Halen é muito bom nisso.

Curioso no anúncio é a saída do baixista, o Michael Anthony. Em seu lugar entra Wolfgang Van Halen! Um moleque de 15 anos e filho do Eddie. Se fizer no baixo 30% do que o pai faz com a guitarra, será um show. Titio Alex segue nas baquetas.